quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Café Europa: Emissão #38, de 10 de Setembro de 2012

1.ª Hora 
01. NICO – “Janitor of Lunacy” USA/GER
02. REPORTAGEM 2.º DIA DO FESTIVAL ENTREMURALHAS 2012, com entrevista exclusiva a Geoffroy Delacroix e Andy Júlia dos DERNIÈRE VOLONTÉ. 

2.ª Hora 
01. SOAP AND SKIN – “Janitor of Lunacy” AUT
02. REPORTAGEM 2.º DIA DO FESTIVAL ENTREMURALHAS 2012, com entrevista a Kim Larsen dos OF THE WAND AND THE MOON

CAFÉ EUROPA NO ENTREMURALHAS 2012 – REPORTAGEM 2.º DIA, domingo – 26 de Agosto
Para o segundo dia deste ENTREMURALHAS 2012, outro dos momentos por nós há muito aguardado. Mais uma estreia em Portugal, no caso do projecto do francês Geoffroy Delacroix - os DERNIÈRE VOLONTÉ. Apesar do nosso receio inicial de que o espaço se mostrasse exíguo para um público ávido de os ver ao vivo, o certo é que mais uma vez se confirma que a organização faz as escolhas certas dos locais e, neste caso, esta foi muito, mas muito bem-feita. A Igreja da Pena mostrou-se o espaço ideal, para que a dupla de percussionistas Geoffroy Delacroix e Andy Júlia, acompanhados da caixa de ritmos, debitassem batidas do melhor militar-pop feito nos dias de hoje. A base do concerto foi, claro está o novo “Mon Meilleur Ennemi”.
No final do concerto eram audíveis comentários dos presentes manifestando o seu agrado e referências a qualquer coisa como “um dos melhores momentos dos Entremuralhas”. Nós …  concordamos plenamente.
Para que nada deste concerto se nos escapasse, fomos conversar um pouco com Geoffroy D. e Andy J., acerca da sua música e da sua presença em Portugal e de que partilhamos com os nossos ouvintes:
- ENTREVISTA a Geoffroy Dellacroix – Dernière Volonté
 Após um concerto intenso e inesquecível nas ruínas da Igreja de Santa Maria da Pena, com a nave completamente cheia, em que o duo francês DERNIÈRE VOLONTÉ (DV) revisitou uma boa parte da sua discografia, com especial incidência nos dois últimos álbuns de estúdio, “Immortel” e “Mon Meullieur Ennemi”, mas, trazendo de volta coisas antigas como “Mon Mercennaire” e “La Nuit Revient”, Geoffroy D. concedeu-nos cerca de uma hora para conversar, trocar memórias da música moderna francesa e assinar um vasto lote de discos de DV. E, já que estávamos em maré de recordações da cold wave gaulesa, questionámos Geoffroy, entretanto secundado pelo enérgico percussionista Andy Julia, sobre os primórdios do projecto.
Geoffroy ri-se e garante que, no início, era apenas ruído, feito com instrumentos rudimentares, mini sintetizadores e gravadores de fita, tal como outros jovens da altura, sem a ideia de um projecto definido - estava-se no início de 1996, no século passado, acrescenta ainda com alguma ironia.

Após este período incubatório, em 1998 ainda chegou a gravar os temas mais tarde repescados em “Obeir et Mourir”, onde havia mais nexo na sua tendência “bruitista”, assunto a que voltaremos já de seguida. Na continuação do seu projecto musical, então já como DV, o seu primeiro álbum sai em 2001 com o título “Le Feu Sacré”, desenvolve uma abordagem ambiental, industrial e marcial, circunspecta e com um teor simbólico algo ligado à História, mas onde se denotavam texturas melódicas por vezes neoclássicas. Com a chegada do segundo álbum “Les Blessures de l’Ombre”, regista-se uma discreta mudança de figurino, com temas mais convidativos à dança, sem perder apesar de tudo o toque de frieza que identifica DV. Como se explica esta mudança de atitude?
Geoffroy concorda que foi nas tapes de “Obeir et Mourir” que chegou á conclusão de que deveria levar em frente a identidade do projecto e, nesse ponto de vista, “Le Feu Sacré” foi ele próprio uma mutação, uma transição focada em terreno mais histórico-ambiental; tinha de criar algo de novo e não simplesmente repetir fórmulas musicais e sonoras que estavam a ser implementadas na França e um pouco por toda a parte na Europa – evitar soar como LES JOYAUX DE LA PRINCESSE ou DER BLUTHARSCH. Daí que decidisse criar a sua própria personalidade, cantando em Francês, acrescentando um pouco de “groove” ou seja elementos rítmicos convidativos da dança, elementos clássicos e militares, nomeadamente a célebre batida de marcha. Relativamente à proximidade a LES JOYAUX DE LA PRINCESSE, refere que apenas esteve algumas vezes em contacto com o seu mentor Eric Konofal, mas dadas as suas pronunciadas diferenças, cada um foi mantendo os seus próprios projectos, salvaguardando a boa onda com que esses contactos se verificaram.
Após esse período até 2002, há um interregno, preenchido apenas com a edição de “Commémoration”, uma compilação de inéditos e singles espalhados por outros lançamentos colectivos, e também com a tal reedição das fitas de “Obeir et Mourir”, que não são uma compilação mas sim uma reedição melhorada do verdadeiro primeiro trabalho de DV. Ora estas edições conjuntas poderão ter lançado alguma confusão junto dos seguidores, uma vez que a sonoridade patente diferia um pouco do que já estava sendo feito em “Blessures de L’Ombre”. Por outro lado, acrescia o referido interregno até ao novo de originais que só chegaria em 2006.
Geoffroy admite que ficou muito decepcionado com o resultado final desse seu segundo de originais oficial; não gostou do que ouviu porque achou os temas demasiado longos e o som nada bom. Ficou mesmo desapontado e por isso começou um longo período de trabalho na senda de temas mais apelativos e cativantes. O facto de possuir equipamento antigo ou pouco actualizado só tornou o processo de gravação de um novo trabalho ainda mais lento, daí essa demora de mais de três anos e meio.
Durante esse tempo toma parte no projecto conjunto paralelo BLASTERKORPS, uma parceria com Arnaud dos Intolerance Culture Kaos (ICK), que deveria ter saído num só álbum em 2004 – “La Justice des Hommes”, o qual veio a ser dividido por um EP de quatro faixas e um 10’’ de seis, isto é Vol. I e II. Entretanto, os BLASTERKORPS separavam-se e tudo ficou por aí.
A questão dos projectos que vão e vêm, que acabam, mal começam, leva-nos a questionar o nível de aceitação relativa que uma banda como DV possa ter em solo natal.

Geoffroy refere que não o sabe muito bem – responde apenas que algumas pessoas lhe costumam dizer como gostam do grupo ou não, mas a reacção das pessoas não é coisa que lhe interesse muito, preocupa-se essencialmente em fazer um bom disco para obter um bom retorno, mas é apenas um interesse pessoal. Mesmo assim pode falar-se num substancial grupo de seguidores em França, o qual considera bom mas nada de massivo. Neste aspecto interessante da dimensão da audiência na terra natal, Geoffroy aproveita para chamar à conversa o percussionista Andy Julia (que é também a voz principal do novo projecto SOROR DOLOROSA), para nos retratar melhor o assunto. Andy considera-a menos leais, e que os DV são bem mais famosos fora do seu país, na Rússia, em Portugal, na Espanha também, em vários lugares menos em França, isto porque a maioria do público não ouve música francesa. Como se explica esse fenómeno, não só em relação aos DV mas à música francesa em geral? Aos franceses falta neste momento algo na sua alma para uma melhor aceitação da música feita pelos seus compatriotas; para eles, seguir o trabalho de músicos e projectos nacionais é tão mais interessante quanto mais essas mesmas bandas tenham andado à volta do mundo, tendo desenvolvido fama, sucesso e popularidade. Durante alguns tempos, os DV tocaram em palcos franceses e tudo correu bem, mas há um sentimento que é perceptível nos olhos da audiência quando as coisas começam a fazer menos o efeito desejado, e isso, segundo Andy Julia, não é tanto acerca da quantidade de gente presente mas, mais em relação a essa resposta emocional público, subentendendo-se que algo se perdeu.
Relativamente à escrita da poesia patente nas canções de DV, questionámos Geoffroy sobre o facto de a escrita em DV se ter sempre esforçado por ser clara, embora simbólica, narrativa, contudo habilidosa e bem trabalhada, pelo menos, tanto quanto um poeta se deve esforçar por alinhar, nem que, apenas, dois versos na perfeição, e embora se tenha mantido totalmente poética, dá-nos a ideia de que após o álbum “Devant Le Miroir”, Geoffroy desenvolveu um registo pessoal quase confessional. O autor admite que para “Devant Le Miroir” as coisas tiveram de ser diferentes – sentiu a necessidade de expor os seus problemas pessoais, algo que se revelou algo estranho uma vez que, na altura, estava obcecado pela obra existencialista de Pierre Drieu La Rochelle, “Le Feu Follet”, que Louis Malle levou à tela em 1963, dado que Geoffroy se identificava em absoluto com a história, pelo menos relativamente a passagens da sua juventude adulta. Daí que, tal como bem identificámos, “Devant Le Mirroir” fosse uma obra confessional, algo que tinha mesmo de fazer. De resto, observamos nós, essa nota pessoal, começa a ser liricamente delineada através da predominância de sujeitos poéticos no singular, desdobrados por vezes nos seus respectivos plurais, tornando-a naturalmente um pouco mais inserida no chamado domínio da poesia confessional, algo com que Geoffroy concorda inteiramente.
De uma forma geral, a moderna cena musical francesa sempre encontrou nichos de algum reconhecimento, inclusive airplay nas estações nacionais – nomes como Sapho, Marquis de Sade, Marc Seberg, Métal Urbain, Taxi Girl, Electric Callas, Kas Product, e mais recentemente, em círculos mais fechados, nomes como Les Joyaux de La Princesse, Tribe of Circle, ICK, etc; na generalidade, lançámos a questão sobre se, essas bandas, teriam a noção de que encontrariam mais oportunidades de sucesso junto de países europeus de língua latina, não só obviamente pelo parentesco linguístico, mas sobretudo pela proximidade cultural (enfim todos os restantes países do eixo latino europeu) – Geoffroy desilude-nos um pouco com um titubeante talvez sim, talvez não – não sabe mesmo, de resto remete-nos para uma questão anterior, não tem a noção de onde é que é mais popular, não se interessa por isso, não tem nada contra as pessoa, pelo contrário, mas o seu objectivo é fazer os seus discos e o os seus concertos, o resto não lhe diz respeito. Não tem website, não dá muitas entrevistas - o que logo faz desta uma raridade para todos vós -, não se preocupa em contactar com as pessoas depois dos concertos, portanto, … voilá!
Na senda de perguntas difíceis mas que evitem a velha cadeira do trivial-croquete, avançámos com outra que apesar de tudo obteve melhor feedback, pese o facto de que por vezes o inglês de Geoffroy não fosse suficiente para entender tudo o que perguntávamos, daí a necessidade de recorrer a Andy Julia para uma tradução mais rápida quando necessário. Queríamos saber se, após um disco tão marcante como “Devant Le Mirroir”, que o levou a ter uma presença discográfica mais constante no mercado, os títulos dos álbuns seguintes, “Immortel” e “Mon Meilleur Ennemi”, completariam ou não uma trilogia temática, já que, uma vez interligados sugerem o velho tema do inimigo imortal através dos tempos, reencontrado frente ao espelho; de forma expressiva, mas reticente Geoffroy reconhece ser estranha essa leitura, mas logo passa a corrigir categoricamente – a primeira trilogia vai de “Le Feu Sacré” a “Devant Le Mirroir” e a segunda começa em “Immortel”, passa por “Mon Meilleur Ennemi” e termina no próximo álbum que se intitulará “Prie Pour Moi”. Pelo menos conseguimos este scoop, já que pela forma como o anunciou, sugere que poucos ainda sabem o nome do futuro disco de DV.
Num crescendo no teor de questões, estávamos a guardar a mais difícil para o fim da nossa conversa; sempre se verificaram temas “tabu” nos meios de comunicação social correntes, nomeadamente relativos à cena industrial francesa. No entanto, não deixa de ser surpreendente que, passados quase 75 anos sobre a ocupação alemã e a república de Vichy, haja uma tendência para esquecer esses episódios, apagá-los ou simplesmente varrê-los para debaixo do tapete. Terá ou não havido uma mudança de mentes junto de uma geração específica de músicos e compositores franceses, enfrentando os factos sem prejuízo e mostrando o nervo necessário para clarificar certos aspectos do referido momento histórico? Geoffroy não quer tomar qualquer posição pessoal relativamente a esse período, até porque na sua família, os seus antepassados estiveram envolvidos nos acontecimentos.          
O seu avô disse-lhe um dia que nesse quadro complexo, não existe só branco e não existe só preto – existe preto e branco, querendo isto dizer que nada é muito claro. Algumas pessoas agiram de forma correcta outras de forma incorrecta, em ambas as partes envolvidas – gente na Resistência que procedeu muito mal outras bem, o mesmo para os colaboracionistas. Ouviu falar de alemães que desempenharam um bom papel e, do outro lado, franceses resistentes que se comportaram de forma errada, e vice-versa.
Essa resposta leva-nos de volta ao título do álbum primitivo de DV “Obeir Et mourir”. O título reproduzia apenas uma reflexão sobre um livro de Albert Speer, arquiteto do III Reich, que questionava a noção da sua responsabilidade no meio do caos para onde se encaminhava o regime alemão – deveria obedecer e viver ou desobedecer (salvando a honra) e morrer? Na óptica poética de Geoffroy, este optou pelo jogo conceptual de “obedecer e morrer”, o que para nós reflecte bem a realidade de um movimento que começou errado de raiz.
Tornou-se óbvio, após “Devant Le Mirroir”, que o seu trabalho se tornou por um lado mais acessível, mas por outro mais forte e mais sólido; sem querer fazer futurologia, se outra mudança estilística tivesse de ter lugar, como a imaginaria? Geoffroy afirma não querer tornar-se num tipo estúpido que faz música para os avôzinhos; quer continuar a ter um som dinâmico. Já viu muitas bandas dos anos ‘70 e ‘80 estagnarem com as suas guitarras. Quer continuar a experimentar sons, experimentar equipamento, experimentar tudo que for possível; não quer que a sua música pare no tempo. Quer que esta se torne acessível, mas com uma faceta sempre mais experimental, quiçá ligada a algum noise. Mas ainda não está tudo decidido para o novo álbum “Prie Pour Moi”, terá de ver.
O lado rítmico dos DV, nos últimos anos tem vindo a tornar-se muito mais forte; falando mais para Andy Julia, sublinhamos o facto de se ter operado uma mudança notória nesse campo; Andy refere simplesmente que houve um desejo de inserir na sua música um pulsar mais pop, misturando-o com a toada marcial que os caracteriza, resultando num ritmo muito forte. Esta mistura é particularmente conseguida ao vivo, tornando o seu som mais original; as pessoas sentem um interesse genuíno em escutar melodias agradáveis combinadas com uma batida muito forte, abrindo o caminho para voz de modo mais eficaz e talvez ainda mais forte, e em locais especiais como as ruína da Igreja da Pena, com o eco, causa ainda mais impacto.
Acrescenta Andy Julia que viu alguns elementos do público lá em cima, nos acessos à parte mais alta das ruínas, e imaginou que esse som, vindo de baixo para cima, deveria soar como um tremor de terra, uma impressão confirmada por um dos colaboradores do Café Europa que lá assistiu a parte do concerto. Andy justifica que as líricas e a música dos DV se revestem dum cunho profundo e essa interpretação do som que sobe das profundezas para cima, adequa-se na perfeição. Tanto mais que na música pop, essa cadência rítmica, aliada à força com que se bate nos tambores, raramente se verifica, e essa passa por ser exactamente uma característica bem inovadora do som DV. Pretendem continuar no trilho da originalidade e têm inclusive feito alguma pesquisa neste domínio, tomando notas para que não caiam no risco de copiar alguém; para além disso vão incluir mais sons, mais diferentes teclados, mais ruído à maneira industrial-ambiental, drones, a que adiciona mais pesquisa no campo da percussão, utilizando por exemplo, sinos.
Com todo este manifesto de intenções para o futuro, dá vontade de perguntar se encaram uma possibilidade de recuperar parte do seu legado industrial-marcial? Geoffroy diz que sim, com toda a probabilidade. Há alguns anos atrás, acharia que não, que nunca voltaria a fazer esse tipo de som, mas agora atalha frontal “Porque não?”. Nunca diz “nunca” e neste próximo álbum encontrar-se-ão sons, ruído e grande parte desses elementos mecânicos, porque gosta imenso conteúdos. Está mais velho do que em 1998, mas isso não quererá dizer que se trata de um regresso ao passado. Quer apenas inserir esses elementos mais perturbantes, porque não pretende fazer um som limpinho; tenciona inclui-los da mesma forma que acontece ao vivo, quando, entre cada tema tocado enquanto o público aplaude, os sons industriais manipulados parecem dar responso às palmas.
Palmas que os DV receberam profusamente por um público seleccionado e selectivo, a transbordar de entusiasmo pelo poder e dinamismo das canções dos DV, um dos pontos mais altos do EM 2012.

Porque a conversa com Geoffroy D. foi longa e interessante e porque também era necessário visitar o porco no espeto, não chegamos a tempo de assistirmos a outra das estreias, no caso, os gregos DAEMONIA NYMPHE. Herdeiros das tradições da Grécia Antiga apresentaram-se no ENTREMURALHAS, com a sua música evocativa, mitológica e milenar, utilizados instrumentos ancestrais, exclusivamente manufacturados para a banda pelo britânico Nicholas Brass. Desse espólio personalizado fazem parte a Lira, o Barbitos (instrumento de cordas), a Flauta Dupla, e o Krotala (espécie de castanholas). As letras do colectivo baseiam-se em rituais de celebração e hinos órficos e homéricos, onde também se descortinam poemas de Safo para Zeus e Hécate. Segundo algumas opiniões por nós ouvidas um concerto, inesquecível de que nos arrependemos de não pudermos ter assistido.
A encerrar os concertos do Palco Alma deste ENTREMURALHAS 2012, apesar de se tratar de um dos poucos projecto constantes em cartaz que não se estreavam em palcos nacionais, eram, a par dos ROME e dos DERNIÈRE VOLONTÉ, um dos principais motivos que levaram o Café Europa ao castelo de Leiria. Os OF THE WAND AND THE MOON, o projecto pessoal de Kim Larsen que com o seu último álbum “The Lone Descent” atingiu o grau de criador de obra-prima e que, pela primeira vez apresentava-nos tal obra. Havia entre nós um certo receio de que a elaborada música de “The Lone Decent” pudesse não ter a correspondente transposição para palco, mas logo na primeira impressão ao vermos a “constituição da equipa” na preparação do palco os receios começaram a diminuir, embora um problema técnico com os cabos de ligação da guitarra eléctrica tivesse posto em causa esse ganho de confiança, e que provocaram um ligeiro atraso com consequências nefastas, pois que forçou a um encurtamento do concerto.
O neo-dark folk que tinha ganho novas sonoridades em “The Lone Descent”, com as pinceladas psicadélicas e de post rock que os novos colaboradores de Kim Larsen acrescentaram ao som dos OTWATM, também em palco, com seis elementos foi conseguido, superando, em larga escalada tudo o que poderíamos perspectivar para esta apresentação. Como seria de esperar foram do último álbum que saíram a maior parte dos temas tocados, como “A Pyre of Black Sunflowers”, “Abcense” “Tear It Apart”, Sunspot” ou “We Are Dust”, mas foram também recordados outros momentos da obra OTWATM, tais como “Hold My Hand”, “My Devotion Will Never Fade” ou “ I Crave For You”. Temas que eram complementados com a passagem de vídeo evocando momentos dolorosos ou menos felizes porque este planeta tem passado nas últimas décadas.
Para o final Larsen guardou a pedra preciosa que é o tema título de “The Lone Decent” com uma prestação arrebatadora de todos, mas com destaque para o guitarrista a demonstrar que as suas raízes estão no post-rock. Simplesmente o concerto do festival, uma vez mais pecando apenas pela curta duração.
Como compensação e já depois de todo o público ter abandonado o recinto do palco alma, colocámos três cadeiras em frente ao palco e conversámos longamente com Kim Larsen, partilhando com os nossos ouvintes o resultado dessa conversa.
- ENTREVISTA a Kim Larsen – OTWATM
Demos as boas vindas a Kim Larsen após o concerto demolidor com que nos presentearam na noite de domingo, 26, uma força que se entendia no álbum “The Lone Descent” mas que não pensávamos ser possível reproduzir em palco. Relembrámo-lo da nossa conversa há quase seis anos atrás, em Sintra, no concerto da União Sintrense em 15 de Dezembro de 2006; desde então muita água tem passado debaixo da ponte, e a pergunta que se impõe é: por onde tem andado e o que tem feito? Larsen ri-se e concorda que, de facto, já se passaram seis anos, e entretanto, já voltou a tocar em Portugal, no Porto e em Lisboa, e têm tocado um pouco por toda a parte na Europa. Ainda não foram à América mas existem já planos de, em breve, fazer uma pequena digressão americana, nomeadamente na companhia dos KING DUDE, possivelmente no início de 2013.

Entre o álbum “Sonnenheim” e o trabalho de 2011, “The Lone Descent”, os OF THE WAND AND THE MOON (OTWATM) cumpriram um longo período de cinco anos em que não só amadureceram as canções para o recente álbum, mas aproveitaram, também, para lançar um esplêndido álbum do projecto lateral SOLANACEAE, para além de outras aparições como convidados. Entretanto, as canções de “The Lone Descent” foram tomando forma; foi um longo período de trabalho árduo? Foram acima de tudo anos em que manteve as duas actividades enquanto OTWATM e SOLANACEAE, evoluindo em duas direcções distintas, não querendo misturar os dois géneros, já que num se manteve mais acústico, mais fiel às suas raízes folk, e no outro se dedicou a material mais eléctrico, mais produzido. Entretanto, afirma também, ter-se mudado para uma ilha na Dinamarca, e gastou dois anos lá a reparar uma casa, tendo, como se diz, assentado arraiais lá. Passou depois cerca de três anos a trabalhar no próximo álbum, embora com interrupções, e nunca de forma contínua. Quando o fazia era mesmo sete dias por semana, mas Larsen refere que não gostaria de encontrar quaisquer obstáculos, e que, na prática, acabou por ser o mais dispendioso disco que alguma vez gravou. E soa de facto caro; foi gravado em sistema analógico, tendo sido depois transferido para computador e misturado. Ficou contudo mais perfeito e com um som mais “quente”, mas tendo ocupado muito mais tempo de produção, ficou deveras mais caro, até porque o sistema analógico com que trabalhou tinha apenas 24 pistas, o que implica mais trabalho, e isso dá-lhe vontade de rir quando se lembra que algumas das faixas têm mais de 100 pistas envolvidas, o que dificultou a mistura final, mas, ao cabo dos trabalhos, valeu a pena o dinheiro e o esforço.
Voltando aos SOLANACEAE, onde Kim Larsen decidiu desenvolver uma abordagem mais acústica e mais pura do que era o som de OTWATM, por oposição à orientação seguida em “The Lone Descent”; quisemos saber se tenciona regressar a essas paragens mais bucólicas da sua criação musical. Larsen garante que já existe algum material novo para os SOLANACEAE, curiosamente gravado em paralelo às gravações de “The Lone Descent”, mas, actualmente, com a inovação e contribuição de outras pessoas, que não somente ele, em estúdio. Os seus colaboradores são inclusive convidados a escrever música e líricas para os novos temas de SOLANACEAE, dando muito do seu input pessoal, ao passo que OTWATM continua a ser mais o seu projecto individual, com a colaboração de outros que seguem apenas as funções de músicos de sessão e ao vivo, como de resto pudemos apreciar esta noite. É ele que escreve tudo para OTWATM, tendo mais controlo total, e com os SOLANACEAE prossegue numa linha mais folk psicadélica, suave e acústica, e com o seu projecto pessoal tem desenvolvido uma linha orientada para um certo rock/folk eléctrico. E, é justamente nesse ponto que afirmamos tê-los visto nesta noite no ENTREMURALHAS – canções que ao vivo ganham uma energia particular – não necessariamente ásperas, mas definitivamente mais eléctricas e poderosas. E, em relação ao acréscimo da voz feminina à música de OTWATM, o que nos diz Kim Larsen é que, para este álbum “The Lone Descent” queria experimentar com harmonias vocais e, à falta de uma, encontrou duas colaboradoras, curiosamente ambas chamadas Louise, sendo uma a engenheira de som que trabalha com ele na produção estúdio de OTWATM. De resto, e em nossa opinião, a prestação vocal da outra Louise em palco foi deveras marcante, isto porque quando se justifica nas canções uma subida de tom e maior intensidade, a jovem dinamarquesa é por si uma solista de canto notável, não se limitando a apoios.
Kim considera que foi óptimo a sua inclusão porque trouxe muito mais expressão e emoção à música de OTWATM.
Questionámo-lo, em seguida, sobre se costuma ter algum retorno do tipo de difusão que os OTWATM têm, nomeadamente na rádio; será que “The Lone Descent” lhes granjeou mais essa possibilidade, para além das habituais rádios universitárias e estações web? Kim concorda que alcançou um lote novo de audiências, e não só, uma vez mais, a clique do neo-folk; em relação á sua passagem em rádio, já não tem tanta certeza, embora por exemplo continue a receber vídeos, tanto ao vivo como criados, mas é algo que também não segue ou com que se preocupe.
No entanto, com tanto investimento feito em “The Lone Descent”, seria lógico tentar um pouco mais de promoção … Larsen mais uma vez ri-se – foi ele que gastou todo o seu dinheiro e lançou o álbum no seu próprio selo discográfico, portanto cabe-lhe a missão de o promover à sua maneira. Sendo ele o principal criador envolvido, não se preocupa muito com esse lado do business, prefere, como lhe sugerimos, deixar fluir os acontecimentos naturalmente, e ver até onde pode dar cada lançamento seu. Considera a sua sorte de poderem tocar em festivais europeus como o de Roskilde na Dinamarca em Julho e antes no célebre Wave Gothic Treffen de Leipzig na Alemanha, e também neste ENTREMURALHAS, o que se depreende ser a sua forma de promoção favorita. A este ponto associa-se naturalmente uma boa distribuição dos discos pela editora alemã Tesco, que têm até ao momento feito um bom trabalho. Prefere viver um dia de cada vez e não especular sobre a sua potencial popularidade; “The Lone Descent” foi um disco que teve como ouvinte prioritário o próprio Kim Larsen, foi música feita à medida daquilo que gostaria de ouvir. Se não conseguir recuperar todo o seu investimento de estúdio, não se sentirá lesado, pois foi assim que o pensou e melhor o fez. Gosta assim e tudo está bem assim. Mesmo assim, podemos sempre dizer que, com apenas dez meses, ainda é um álbum muito jovem, com tempo para crescer e atingir mais outras camadas de público melómano, e quando não se tem assim de repente milhares de euros para o promover em todas as revistas, ou na televisão ou na rádio, demora sempre o seu tempo a chegar às pessoas, que não aquelas que já estavam á sua espera.
Tanto quanto as canções expressam representações poéticas de pensamentos e sentimentos, em “The Lone Descent”, Kim Larsen parece ter trabalhado profusamente na garantia de uma certa integridade para cada uma das canções escritas; não que todo o seu trabalho anterior estivesse conceptualmente blindado, como numa peça onde deve haver uma certa unidade lógica e sequência, mas tem-se a impressão de que em “The Lone Descent” as canções flúem independentemente e podem assim ser entendidas. Uma vez mais, e tal como na nossa conversa em Sintra de há seis anos, Kim esquiva-se em responder a questões sobre a sua poética – não que seja segredo mas é sempre algo muito pessoal, e provavelmente ainda mais neste álbum (e isso já nós o sabíamos) – daí que sustentássemos que ao contrário de por exemplo SONNENHEIM, estas não têm um tema a uni-las e parecem ter vida própria. Nas palavras de Kim, a única técnica que sempre seguiu foi a de não ter palavras para muitos dos temas que já estavam gravados unicamente com música, e só depois lhes deu corpo poético. Como se vê, pouco revelador da parte do músico dinamarquês.
Não querendo deixar este assunto arrumado nas reticências cautelosas de Larsen, voltámos à carga, perguntando se desta vez, as líricas intrinsecamente pagãs não estavam tão evidentes como de costume, mas por outro lado não teriam desaparecido… Kim Larsen afirma não ter essa necessidade de ser tão explícito no que toca a uma abordagem das runas nos seus poemas; ainda fazem parte da sua vida mas não gosta de exibir essa faceta, porque de resto não é assim que as coisas funcionam. Pode usar um pin com uma ou outra runa, mas não vai mais longe que isso.
Seria talvez uma conversa para desenvolver off the record, e Larsen ri-se uma vez mais, mas o que é facto é que cada vez mais encontramos na internet tutoriais feitos por rapazes e raparigas festivaleiros com as dez melhores dicas sobre como ler ou tirar runas, e isso é verdadeiramente um logro, visto ser algo essencialmente pessoal, e não parte da feira new age em que tudo isto se tornou. Admite que no passado e nos seus discos anteriores pode ter composto muitas canções referentes à temática pagã e rúnica. Mas com este novo álbum decidiu fazer algo de inteiramente novo, e afastar-se de uma certa toada obscura, que parece regular toda a produção neo-folk, embora ainda aprecie o tema das runas, que acabou por se tornar, infelizmente um estereótipo.
Finalmente umas impressões sobre este festival ENTREMURALHAS e o concerto que encerrou as actividades no palco Alma. Kim Larsen refere que foi fantástico estar presente – esperava uma localização mais limitada mas quando descobriu a existência de vários palcos, com bandas a revezarem-se cá em cima e lá em baixo, achou deveras interessante; e quanto ao concerto de OTWATM, apesar dos atrasos por causa dos cabos e das mudanças de palco, tudo correu melhor que o previsto e o grupo deu o seu melhor para agradar ao público que enchia todo o terreiro junto à Torre de menagem, tendo sido portanto uma óptima noite, ao que nós acrescentamos excelente, já que vistos em palco, os músicos se entregaram de corpo e alma à celebração ao vivo da maioria dos temas que fazem de “The Lone Descent” um dos melhores trabalhos de 2011. Nota curiosa para encerrar, enquanto pedíamos a Kim Larsen que gravasse o seu ID para o Café Europa, é que viemos a saber que Kim Larsen iria estar presente na semana seguinte, na qualidade de turista visitante na cidade dos moliceiros, na companhia de amigos comuns.
Uma conversa de pouco mais que um quarto de hora onde tivemos tempo de obter um detalhado retrato da personalidade do homem por detrás de OF THE WAND AND THE MOON.          
Fechado o Palco Alma para esta edição 2012 do ENTREMURALHAS, ainda restavam duas apresentações no Palco Corpo. Enquanto realizávamos a entrevista a Kim Larsen, subiram ao palco os suíços THE BEAUTY OF GEMINA, uma das mais conhecidas bandas helvéticas cuja popularidade tem crescido vertiginosamente em toda a Europa devido à qualidade dos seus quatro álbuns, o último dos quais com edição de 2012: Iscariot Blues. Pela curta amostra que nos foi possível assistir, terá sido este seu último trabalho que serviu de base a esta sua estreia em terras lusas e que satisfez a quem assistiu, pelo menos pelas reacções do público a temas novos com “Badlands”, “Voices of Winter” e “Last Night Home”.  
Para encerramento a FADE IN preparou um momento de grande energia e festa, ao agendarem para o final os britânicos VNV NATION, provavelmente, a mais famosa e aclamada banda de pop futurístico do mundo. A dupla Ronan Harris e Mark Jackson, acompanhados de mais dois músicos, entrou em palco com a lição bem estudada, abrindo com “Chrome” e seguindo com “Space and Time”, um dos temas mais pop do novo “Automatic”, pondo todos a cantar e a dançar, o voltou a repetir com o tema mais conseguido do trabalho dos VNV NATION, o belíssimo “Illusion”, com Ronan Harris a agarrar por completo o público deste ENTREMURALHAS 2012 e a dar-lhe o final de festa merecido o que aconteceu já com o relógio a bater as três badaladas.
Para finalizar recordar ainda que não foi apenas música o que aconteceu pelo Castelo de Leiria, pois ocorreram ainda desfiles de moda, exposições de pintura e escultura, conferências e projecção de filmes mudos tendo como tela as paredes da Torre de Menagem.
Foi mais uma brilhante organização da FADE IN, a quem damos os parabéns e agradecemos todas a colaboração prestada na realização das entrevistas que hoje partilhamos convosco. Fica desde já manifestado o desejo que o ENTREMURALHAS 2013 seja pelo menos tão bom quanto este. Bem-haja à FADE IN, aos músicos e a todos vós. 
Textos de João Carlos Silva e Ângelo Fernandes
Fotografia de Ângelo Fernandes
Técnica de Nuno Silva

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Café Europa: Emissão #37, de 03 de Setembro de 2012

CAFÉ EUROPA NO ENTREMURALHAS 2012 – REPORTAGEM 1.º DIA

1.ª Hora
01. CURRENT 93 – “Since Yesterday” GB
02. CURRENT 93 – “Imperium V” GB
03. ORDO EQUITUM SOLIS – “The Secret Hope Of F.” IT
04. ORDO EQUITUM SOLIS – “Desiderio” IT
05. REPORTAGEM 1.º DIA DO FESTIVAL ENTREMURALHAS 2012, com entrevista exclusiva a Jerôme Reuter dos ROME.  

2.ª Hora
01. STRAWBERRY SWITCHBLADE – “Since Yesterday” GB
02. REPORTAGEM 1.º DIA DO FESTIVAL ENTREMURALHAS 2012, com entrevista exclusiva a Jerôme Reuter dos ROME (cont).  
03. OF THE WAND AND THE MOON – “A Pyre Of Black Sunflower” DIN
04. HORUS CHAMBER – “Since Yesterday” PT

Reportagem Café Europa no Entremuralhas 2012 - 1.º Dia

Ainda agora começava a terceira edição do Festival ENTREMURALHAS para logo acabar, no dia seguinte - moral da história: Os festivais acabam porque têm de acabar. E acabam porque têm de recomeçar, e depois daquilo que pudemos testemunhar uma vez mais, dentro dos muros medievais do Castelo de Leiria, seria muito difícil equacionar a hipótese de não haver edição em 2013 – a não ser que o calendário Maia nos venha incomodar mais do que aquilo que já conseguiu, e mesmo assim seria para recomeçar de novo. O que mais distingue, de antemão, o ENTREMURALHAS da maioria dos outros festivais de verão neste país, é que é inteiramente non-mainstream, sem ser exactamente underground, porque isso é já em si, um conceito gasto.
Chamá-lo um festival alternativo, um festival gótico (que o é “mas não só!...”), mas também um festival darkfolk ou industrial, será sempre exercício limitador de possibilidades e só interessa àqueles que não sabem ao que vão – mesmo em trabalho – ou para os que têm a mania de pôr etiquetas em tudo, desde os tempos da escova de dentes no infantário… por momentos, temos uma vontade nostálgica de trazer de volta as imortais “rádio soundbytes” de António Sérgio e dizer que este é “O” festival de música “rebelde” que ainda subsiste, mas não seria, quiçá, justo com outros que ainda assim defendem acerrimamente as suas cores.
A FADE IN, e nomeadamente para este festival, protagonizada pela empatia dinâmica de Carlos Matos e de toda a sua equipa, não se reduzindo portanto à sua mediática imagem, só pode estar orgulhosa e realizada pela consecução de tal feito, pela terceira vez. Não seria demais lembrar, ao cabo da terceira edição, que são já bastantes os nomes significativos das áreas musicais estimadas que actuam neste castelo nos finais de Agosto; este ano, o cartel para os dois dias incluía as actuações de JO QUAIL (GB), STELLAMARA (USA), ROME (LUX), CLAN OF XYMOX (NED) e SUICIDE COMMANDO (BEL) no primeiro dia, e DERNIÈRE VOLONTÉ (FRA), DAEMONIA NYMPHE (GRE), OF THE WAND AND THE MOON (DIN), THE BEAUTY OF GEMINA (CH) e VNV NATION (GB) no segundo dia.
Estamos a falar não só em ecletismo - como se pode ver - mas também em criteriosa escolha, capaz de efectivar um espirito de mobilização totalmente abrangente dentro destes géneros musicais, genuinamente promotora daquela sensação de "evento" festivo. Obviamente que nestas condições, lacalização e advento de bom tempo no último fim-de-semana de Agosto, há sempre um factor intrínseco que não depende única e exclusivamente da razão, da praxis e da realidade tangivel - é uma quinta essência que toma corpo na quinta coluna que sustenta a logística do festival e sobe à alma da totalidade dos visitantes. Em verão do nosso descontentamento, a magia operou-se.
O Castelo de Leiria, bem no centro da cidade, o seu avistamento - e as suas vistas -, a sua silenciosa elegância e o rufar interno das suas memórias históricas, do seu simbolismo cultural pátrio que, ligado insofismavelmente a figuras como D. Dinis, Camões ou ao recentemente falecido professor José Hermano Saraiva, o torna talvez o mais eloquente dos nossos castelos, é a premissa base para fazer do ENTREMURALHAS o festival de música em Portugal com a mais pitoresca localização.
Assim que se entra no secular centro histórico, atravessando as ruas estreitas animadas por comércio verdadeiramente cultural, e se começa a subida para as suas partes, o visitante festivaleiro assume ele próprio o papel de peregrino. E, quando se trespassa os portões, a viagem dúplice no tempo passa a ser uma constante. Dadas as condições e exigências de conservação do património histórico, a lotação por noite para o festival, encontra-se limitada a pouco mais de 700 pessoas, o que, à priori denota a ausência de preocupações mercantilistas da organização FADE IN.
Os três palcos, distribuídos ao longo dos caminhos do castelo, têm uma função específica – o palco denominado “Corpo” no largo terreiro em frente aos portões, é dedicado aos grupos musicais de maior mediatismo, e nele actuaram este ano os holandeses CLAN OF XYMOX, os belgas SUICIDE COMMANDO, os suiços BEAUTY OF GEMINA e os ingleses VNV NATION, bandas que reuniam largo consenso de aceitação entre o “clã” musical de visitantes mais predominante no ENTREMURALHAS, autodenominado Gótico, carismático pelas indumentárias e estética mais vampiresca ou romanticamente mórbida. Estes concertos distribuídos pelas duas noites, imprimiram ao ENTREMURALHAS o seu cunho de verdadeiro festival de rock gótico, com uma plateia espontânea dançante e excitada por tudo o que se passava em palco.
O último fim-de-semana de Agosto é, desde o início desta segunda década do novo milénio, sinónimo de viagem marcada até à cidade do Lis, onde, no seu imponente castelo, a FADE IN organiza o ENTREMURALHAS, aquele que é já um dos mais importante eventos internacionais, destinado a uma “tribo” cuja cultura se encontra intrinsecamente ligada aos encantamentos poéticos de Edgar Allan Poe, pela negra estética vitoriana e de cabaret, bem como pelas personagens criadas por Tim Burton ou, em alguns dos mais jovens elementos do público, pelos bonecos de manga japonesa.
É, assim, um festival em que todos são participantes. O primeiro lugar aos artistas, porque em grande medida, será por sua causa que o ENTREMURALHAS atinge o seu esplendor; também a organização da FADE IN, que é uma garantia de qualidade, ainda os comerciantes, pois o festival reúne umas quantas “bancas” de comércio pouco tradicional, e finalmente o público, como figurantes do belo quadro monocromático em que o castelo do Rei D. Dinis se transforma nestes dois dias, sendo também um dos principais componentes deste ENTREMURALHAS.   
Em 2012, o Festival ENTREMURALHAS apresentou já uma maturidade organizacional, que falta a muitos dos outros festivais, que abundam por este país fora, durante o verão. Depois da opção por três dias de festival da edição do ano transacto, a FADE IN voltou ao formato de dois dias (sábado e domingo), tornando-se é certo mais curto mas mais intenso com uma distribuição equitativa de duas bandas por noite em cada um dos dois palcos principais (Alma e Corpo). O espaço idílico que é o castelo de Leiria, poderia mostrar-se cheio de entraves à realização deste tipo de evento, devido às suas condições morfológicas. No entanto, a repartição dos diferentes espaços mostrou-se uma vez mais perfeita, tendo as ruínas da Igreja de Santa Maria da Pena como ponto de equilíbrio entre o estilo arquitectónico e o espírito do festival.
E foi nesse espaço que, verdadeiramente se iniciou o ENTREMURALHAS 2012, com a primeira de muitas das estreias em palcos nacionais, com que este festival no brindou: a presença delicada e bem-disposta de JO QUAIL no palco das ruínas da Igreja da Pena. Violoncelista moderna, virtuosa quanto baste e capaz de uma entrega visionária na reprodução das suas criações, JO começou com um bom momento de humor, conversando com o público e arrancando com o seu cello futurista…unplugged. A lição número um a aprender, segundo JO, por todos os aprendizes de violoncelista elétrico – ligar o jack.
JO QUAIL, apresentou-se sozinha em palco, acompanhada apenas pelo seu peculiar violoncelo, cujos diferentes acordes ia gravando em loops, técnica que fez questão de referir, não fossem os presentes julgar que estava a “fazer batota”, compondo assim as diferentes camadas sonoras de que a sua música experimental e ambiental é rica. Com um inicio de concerto cheio do chamado “nervoso miudinho” e bom humor, JO QUAIL foi-se aos poucos libertando da responsabilidade da abertura do evento, passando com enorme mestria pelos temas do seu primeiro e único álbum a solo até ao presente “From The Sea”.
A etapa seguinte desenrolou-se no Palco Alma, localizado junto à Torre de Menagem e cujas características do espaço físico que o rodeia deu origem ao nome muito apropriado deste festival.
As honras de abertura do Palco Alma foram entregues aos STELLAMARA. Apesar de se tratar de um colectivo norte-americano a sua música tem raízes centralizadas na cultura e tradições arábicas, turcas, balcânicas e persas, bem como nas tradições medievais europeias tal como parte dos seus elementos, como o caso da vocalista, a bela Sonja Drakulich, com origens serbo-hungaras. O concerto deste ensemble mágico contou assim com passagens por geografias sonoras dispares, com momentos brilhantes, tais como os temas populares búlgaros, com a voz de Sonja a não dever nada às interpretes do famoso canto das vozes búlgaras, assim como a interpretação de “Song to the Siren”, mais próxima da versão This Mortal Coil e da voz de Liz Frazer que do original de Tim Buckley, mas que serviu para a devida homenagem a ambos. Outro dos pontos altos (literalmente) do concerto dos STELLAMARA, foi o momento de dança oriental feito pelo outro elemento feminino do colectivo na muralha circundante, levando a que todo o público virasse, momentaneamente, as costas para o palco. Esta apresentação dos STELLAMARA, foi a melhor estreia que poderia ter tido em palcos nacionais, ou não fosse o castelo de Leiria o cenário ideal e natural para este momento.    
Vindos do grão-ducado do Luxemburgo os ROME foram a terceira banda a subir a palco, sendo, também a terceira estreia em palcos nacionais. Jerôme Reuter acompanhado de mais três elementos, eram, sem dúvida, os mais aguardados pela grande maioria do público, sendo notória a presença entre estes de mestres da obra dos ROME, que embora restrita a meia dúzia de álbuns, o último dos quais triplo e de uns quantos EP’s, é já suficiente para serem considerados como a banda com maior culto entre os presentes neste ENTREMURALHAS.
Apesar da presença de um contrabaixo elétrico, de um mini-sintetizador KORG e das percussões, o certo é que só a presença de Jerôme e a sua guitarra, seria bastante para que este fosse um concerto memorável. Mas, com o acompanhamento tudo ficou perfeito, ficamos apenas com um sentimento de que as cerca de quinze canções com que fomos brindados, nomeadamente “Little Rebel Mine”, “The Pyre Glad” ou “Sons Of Aeeth” todas do último “Die Aesthetik Der Herrschaftsfreiheit” ou o brilhante final com “Swords To Rust – Hearts to Dust” do anterior “Flower From Exile” foram poucas para a satisfazer a imensa espera até vermos os ROME em solo Luso, pois a obra de JeROME e a nossa vontade em ouvi-la, era condição suficiente para que o resto da noite fosse passado no Palco Alma na sua companhia. No entanto, tal foi amenizado com a partilha de vários minutos com esse brilhante comunicador que é Jerôme Reuter, pois que, enquanto o público debandava para junto do Palco Corpo, o Café Europa foi trocar com ele dois dedos de conversa, que agora partilhamos com os nossos ouvintes, transcrevendo a tradução livre da entrevista que poderão ouvir no original fazendo o download da emissão aqui (1.ª hora) e aqui (2.ª hora):

- ENTREVISTA A JERÔME REUTER
Tal como anunciámos desde a nossa emissão do dia 13 de Agosto, o Café Europa enviou uma autêntica embaixada ao ENTREMURALHAS - terceira edição 2012, no sentido não só de acompanhar as quase 20 horas de música do festival, mas com o principal fito de entrevistar três dos mentores das bandas com maior interferência neste vosso programa semanal. Assim foi, e logo ao cair da primeira noite, após um concerto inesquecível no palco Alma, a anteceder o dos CLAN OF XYMOX, que começava lá em baixo no terreiro do Corpo, Jerôme Reuter, o loquaz compositor dos ROME, conversou connosco durante largos minutos, nunca se esquivando a questões e fazendo finca-pé em relação a certos tópicos mais polémicos, mostrando bem porque lidera o quarteto luxemburguês.
Este era o concerto de estreia dos ROME no nosso país, o qual cobriu grandemente o mais recente triplo álbum “Die Aesthetik der Herrschaftsfreiheit”, frequentemente por nós divulgado online na Rádioás, e tornava-se obrigatório questionar Jerôme sobre as novas direcções a seguir depois de tão diversificado e longo trabalho de estúdio. 
A “new stuff”, como ele próprio diz, começará por se materializar num “single”, a sair em Setembro (acabadinho de sair), com roupagens musicais mais directas e ásperas, canções escritas “ de cabeça”, sem o contexto de conceito. Cunho inteiramente pessoal, o que ainda não acontecera com os ROME, onde se tratará de, muito simplesmente, “expulsar demónios pessoais”. Dizemos nós, uma espécie de poesia confessional? Provavelmente, embora tentando evitar esse nicho tornado já muito cliché. Mas é tempo de o fazer e de soltar o lado mais pessoal, o que não significa abandono definitivo dos álbuns conceptuais, já que paralelamente se encontra a escrever justamente um trabalho de ordem conceptual. Paradoxo? Jerôme não gosta de se repetir mas sim de fazer coisas diferentes, já que em parte faz música para si – e se não gostar dela, simplesmente não a ouvirá (nem ele nem nós).
Essa relação emocional esteve patente na reacção do público na noite de 25 de Agosto no Castelo de Leiria, o que de certo modo vai ao encontro desta sua afirmação; apesar das luzes incidentes sobre o palco, Reuter teve alguma oportunidade de observar a resposta do público. Refere mesmo que a audiência é um dado que nunca pode ser deixado fora da equação; é claro que é importante se gostam ou não, contudo a honestidade/autenticidade terá de prevalecer. Não é só um jogo de caça á simpatia, só para ganhar dinheiro, e se essa mesma honestidade não se mantiver, no caso de se fingir para assegurar mais um álbum no ano seguinte, então é como se fosse para uma qualquer programa ou série de televisão, meramente um capricho do momento, uma moda.
Desde o início dos ROME que ficou claro de onde é que eles vinham – fortemente alicerçados na linhagem do “apocalyptic folk”, ou qualquer que seja a tag do dia – e por entre essas nuances folk, o rock alternativo e independente, com um lado mais teatral e poético, guarnecidos por um certo pendor pela Filosofia e História, observação nossa com a qual Jerôme concorda plenamente.
A propósito do tópico da toada histórico-filosófica patente nos álbuns iniciais de ROME, questionámos Jerôme sobre se achava que num passado recente, o espírito revolucionário esteve mais aliado à Arte em geral, algo que ele também questiona, sustentando que a Arte e a política são como azeite e água, não se misturam bem, embora idealisticamente tudo seja possível. Durante as gravações de “Die Aesthetik der Herrschaftsfreiheit”, afirmou ter tido um ideal em mente, que funcionou bem, de acordo com a ficção resultante, mas isso não validaria nunca o argumento de os ROME serem politicamente empenhados. A trilogia é altamente política mas, sempre procurou mantê-la fora da lama político-partidária, fora da realidade política, mesmo que aparente retratar acontecimentos mundiais recentes, como as revoluções no próximo Oriente, a situação económico-financeira na Europa.
A estética da libertação dos senhorios, a introdução livre nossa, começou a ser escrita antes das sublevações na Tunísia, no Egipto, na Líbia, mas ao passo que iam evoluindo, seria impensável para qualquer artista não se sentir influenciado pelo que estava a acontecer, e ser guiado por uma voz interior que lhe dissesse onde procurar os temas de relevância para esta década. Mas, decerto, evitou a armadilha de ser porta-voz político de qualquer que seja a causa.
Jerôme, na sua adolescência punk, sentia-se bem na pele do idealista, tendo se mantido um punk rocker por uns tempos, sempre nas franjas do activismo anarquista. Isto quer dizer que tinha em casa os livros certos para ler, mas na altura não fez; depois à medida que crescia, voltou a pegar neles por alguma razão. A isto não terá sido alheia a motivação para o álbum “Flowers from Exile”, acerca da guerra civil de Espanha – um álbum de 2009, tingido de cores autobiográficas, ou no mínimo familiares já que parentes seus tinham combatido pelos republicanos no conflito que quase destruiu Espanha entre 1936 e 39.
Ao ler essas informações, outras portas se foram gradualmente abrindo e o álbum do ano seguinte é mesmo uma sequela, “Nos Chants Perdus”, desta feita sobre os exilados franceses depois da guerra. Mesmo assim não foi suficiente, daí que tenha precisado duma trilogia inteira para processar todo esse manancial poético – ideológico, que estava no seu pensamento. E assim, com “Die Aesthetik Der HerrschaftsFreiheit”, se completou um ciclo. Assim que terminou a trilogia, Jerôme sente-se esgotado, não só porque foi muito trabalho, mas porque o fez sozinho num ano. Como se não bastasse não foi um álbum dividido por três CD´s, mas um triplo álbum com três partes distintas e uma identidade própria.
A proliferação de álbuns em apenas seis anos, assim como este trabalho recente e a sua dimensão, podem levar o ouvinte a pensar que Jerôme Reuter só compõe peças e obras longas; quando escreve regra geral, nunca o vê como uma canção, mas sim como uma parte do futuro álbum. Algumas canções vêm ter com ele, como elementos chave, mas é algo que não planeia; são precisas quatro ou cinco canções para construir a espinha dorsal de um álbum e a forma como elas soarem, será também a forma como o disco vai soar, como se construindo um núcleo permitisse um desenvolvimento do trabalho. O conceito está sempre presente mas garante a composição individual das canções, continuando fiel ao tema central do álbum, o que acaba por gerar entre outras coisas, o seu título. No entanto, também pode usá-lo como ponto de partida.
As etiquetas do neo folk, dark folk ou qualquer outra imaginária são uma dicotomia paradoxal – é uma necessidade para o músico não se sentir obrigado a caber numa, mas ao mesmo tempo é preciso que as pessoas desenvolvam uma para saberem como se hão-de relacionar com essa música.
É como se tratassem de faróis que guiam os ouvintes mas ao mesmo tempo não é uma lei; por vezes é algo feito de vento… muitas das bandas chamadas de 2ª geração tendem a seguir cegamente os ditames do farol, mas acabam por se repetir, mudando apenas as letras. Mas lá vai havendo alguma diversidade que evolui para casos interessantes; terão ou não essas correntes provocado um abanão no modo de pensar de alguns sectores da juventude europeia…talvez resida aí o interesse destes subgéneros de um subgénero, porque existe de facto uma grande diversidade, não existe apenas um nome que comanda, existem ou existiram alguns que de algum modo moldaram os trabalhos de pessoas que vieram depois mas não de uma forma tão definida, como por exemplo no Heavy Metal. Idealmente, é como se fosse um número restrito de indivíduos fazendo aquilo que querem.
Relativamente à constatação de uma certa dispersão do movimento, Jerôme afirma não poder certificar-se porque há muito deixou de seguir o desenrolar do teatro neo-folk e industrial; quando começou a escrever, terá sido influenciado pelos seus heróis como qualquer pessoa, mas logo deixou de lhes prestar atenção, com o objectivo de ser original. O que se ouviu na juventude é, regra geral, aquilo que nos vai moldar e, na sua opinião, depois dos trinta, mais ninguém vai abanar o nosso mundo. Talvez nos cruzemos com este ou aquele projecto marcante ou este ou aquele compositor que nos inspire pela diferença, mas em termos gerais já se está definitivamente formado musicalmente.
Não segue as novas bandas, não porque não goste ou não se interesse, mas, na realidade, é algo que não faz, porque mal tem tempo para ouvir música. Para Jerôme Reuter, trabalhar em música, não implica necessariamente ouvir a música dos outros. 
Depois de um álbum tão emocional como “Flowers from Exile”, de 2009, que é um marco significativo na sua carreira de gravação, para além de granjear alguma atenção fora das franjas dos públicos neo-folk, não demorou em voltar para estúdio para gravar a sequela “Nos Chants Perdus” em setenta dias de gravação analógica; será essa a marca de água de um perfeccionista ou apenas sinal de respeito pelos fãs? De um modo ou de outro Jerôme considera essa uma forma de colocar a questão muito generosamente – houve uma variedade de razões para tudo isso.
A gravação de “Nos Chants Perdus” envolveu a participação de Patrick Damien, engenheiro de som, produtor, músico, e mais qualquer sejam os seus atributos, que é por si só um perfeccionista, o que com ele faz dois, sobretudo ao nível de conteúdos líricos e formais das composições, embora Jerôme deixasse a questão da perfeição do som inteiramente confiada às mãos de Patrick. Mas, ao confiar em perfeccionistas da produção, ressoa também o alerta – atendendo às condições económicas actuais, já não há lugar para perfeccionismos porque o orçamento rebenta facilmente. Mais ainda, porque, usando sistemas analógicos de gravação, o preço dispara.
A escolha analógica surgiu por acaso, não foi, ao contrário do que muitos pensam, um capricho técnico. Após o relativo sucesso de “Flowers from Exile”, Jerôme decidiu sair de circulação durante uns tempos e reencontrar velhos amigos. Telefonou a este engenheiro de som com quem já tinha trabalhado nos seus anos formativos de punk-rocker, e acontece que ele já não vivia a na cidade de Bruxelas tendo-se mudado para o campo, completamente isolado dos meios urbanos. E foi nesse perfeito ambiente bucólico, num pequeno estúdio com material vintage analógico, que “Nos Chants Perdus” foi gravado e parte da trilogia “Die Aesthetik der Herrschaftsfreiheit” trabalhada. Ambiente ideal, em que acordava com o som do galope dos cavalos a ribombar nos ouvidos, entre a natureza, com comida saudável e sem bares à volta, o que também ajudou à concentração no trabalho, nesse sossego rústico.
Ainda a propósito das líricas dos ROME, voltámos à carga com uma questão – não que o seu conteúdo seja mais importante que a forma musical assumida, mas reveste-se de uma importância significativa quanto ao aspecto temático e, porque não dizê-lo, ideológico da banda. Será que Jerôme não receia que por vezes possa ser mal interpretado? Por exemplo Douglas Pearce dos Death in June passou por um mau bocado, sobretudo na Alemanha, onde passou a ser fortemente boicotado pelas autoridades. A questão para os ROME não envolve obviamente os contornos de ambiguidade que revestem a imagem dos Death in June. Para Reuter as canções que escreve são um pouco como filhos, assim que crescem e estão prontas, passam ao conhecimento público e por assim dizer deixam de nos pertencer. Logo, as pessoas podem percebê-las de forma diferente e sem o controlo do autor. Por seu lado, este deve estar preparado para que a possibilidade real que haja sempre más interpretações por parte de quem ouve e lê. Jerôme acha que os artistas a quem isto sucedeu, de certo modo, só colheram o que semearam, embora seja obviamente um atento admirador dos Death in June. Mas há que reconhecer que existe uma grande diferença entre estes e a segunda geração de seguidores; os primeiros sendo mais velhos e provenientes do trotskismo inglês, tinham algo a dizer e terão usado a imagem provocadora com um fim específico de crítica em relação à traição dos seus camaradas aburguesados, enquanto a maioria das bandas de segunda geração apenas estavam a seguir um figurino e a assumir o efeito de choque de forma gratuita. No meio disto tudo perdeu-se muito conteúdo lírico, muito potencial crítico tresmalhou-se para o lado errado.
Nesse caso, como é que Jerôme reagiria caso se verificasse uma situação semelhante com os ROME? Reuter nunca teve medo de assumir as suas origens ideológicas de esquerda, embora longe esteja a intenção de se apresentar com uma agenda política. De resto, as pessoas sabem-no bem, pelas canções e pelas afirmações manifestadas na imprensa, que está bem longe de todo esse imbróglio de extrema-direita ou da cena neonazi, que não é bem a mesma coisa. E muita gente respeita os ROME porque falam e dizem o que têm a dizer. Foram essas gerações entre Douglas e o presente que estragaram tudo, percebendo mal e lidando de forma errada com o cinismo e a ironia; Douglas P tem a sua maneira de enfrentar o problema e Jerôme Reuter fá-lo obviamente à sua maneira. De resto, Dougla Pearce fez já questão de publicamente afirmar o seu apreço pelos trabalhos de ROME, o que diz muito sobre a sua verdadeira natureza ideológica. Esta questão das más interpretações não é de agora e está um pouco por todo o lado, recua por exemplo até aos tempos de baladeiro de Leonard Cohen, também ele alvo desta ignomínia, logo ele.

De alguma forma é-se responsável por aquilo que se escreve, mas há sempre idiotas por toda a parte; os ROME ainda não tiveram problemas desse género, por serem frontais e de manifestarem que não estão, de modo algum, associados com a direita extremista. No entanto, e não querendo ser advogados do diabo, insistimos apenas por dever jornalístico – as capas dos discos iniciais dos ROME, com toda a estatuária heróica, podiam mesmo assim provocar algumas dúvidas … Reuter concorda e vai mesmo ao ponto de sublinhar o interesse desses layouts como fonte de diversidade estética, mesmo que pudessem motivar diferentes interpretações, algumas erradas. É o valor da obra de arte. Se analisar-se bem os álbuns, há um lado marcial mas é bem auto-explicativo. Essa variedade diminuiu com os álbuns posteriores, o que na nossa óptica revela a tomada de consciência das ambiguidades, provando o nosso ponto de vista. E, é aqui, que Jerôme deixa estalar um pouco o verniz da camaradagem, afirmando que não liga muito a esses detalhes, resumindo a sua distância de todos esses equívocos e sublinhando a clareza com que sempre abordou os seus temas.
Uma palavra final para o concerto dessa noite no palco Alma: Os ROME adoraram a sua estreia ao vivo em Portugal, mau grado algum stress inicial, aquando da mudança de equipamento após a longa actuação dos norte-americanos STELLAMARA. O grupo estava muito motivado para tocar mas, nestas situações, é natural a demora, é a toada comum a todos os festivais, tudo fica atrasado, e já sabiam que tinham de acabar relativamente cedo, não só porque há um limite para o festival mas porque havia outra banda a tocar lá em baixo de seguida, por isso sabiam que tinham de encurtar o seu set. Mas, mesmo assim deu para tocar a maior parte dos temas previstos. A resposta do público foi muito boa. E o mesmo se pode dizer do festival, impecavelmente organizado, apesar deste ou doutro atraso. A mensagem final fica bem clara – Os ROME voltarão em breve ao nosso país.
Depois do momento bem passado na companhia de Jerôme Reuter, pouco nos restou do concerto dos holandeses CLAN OF XYMOX que entretanto tinha iniciado no Palco Corpo. Do pouco a que podemos assistir, e na companhia da tradicional bifana de porco no espeto, o trio CLAN OF XYMOX, agora mais projecto pessoal de Ronny Moorings, encontra-se bem longe das sonoridades que marcaram o inicio da sua carreira ainda nos anos oitenta do século passado, centralizando-se, tal como apontava já os seus últimos trabalhos numa electro darkwave que serviu na perfeição para aquecer parte do público para os SUICIDE COMMANDO.
Integrando o cartaz do ENTREMURALHAS 2011, os SUICIDE COMMANDO viram-se forçados a cancelar a sua presença em Leiria no ano passado, devido a um súbito problema de saúde do seu vocalista e mentor, Johan Van Roy. Todavia, a vontade quer da FADE IN, quer dos SUICIDE COMMANDO, em marcar presença no ENTREMURALHAS e com ela estrear-se em palcos nacionais, era grande tendo ficado quase acertada a sua presença nesta edição de 2012, desde aí.
Esta era outra das estreias há muito aguardadas por grande parte do público do ENTREMURALHAS e tal foi evidente na reacção que cada tema foi recebido, com todos os corpos em constante movimento pois as batidas sincopadas fortes e avassaladoras não permitiam pausas para descanso, com o volume a atingir o máximo com o novo “Attention Whore”. No entanto, descanso foi o que nós procuramos ainda com os SUICIDE COMMANDO em cima de palco pois o dia seguinte prometia também ele ser longo e com momento brilhantes tais como tínhamos sido presenteados até então.
O dia terminava com a debanda do Castelo, encosta abaixo e pelas ruas estreitas e ruelas do bairro histórico, de volta ao hotel. O Corpo estava desfeito mas a Alma edificada e com grandes expectativas para o dia seguinte.
Para a semana voltámos com a reportagem daquele que foi o segundo e último dia do ENTREMURALHAS 2012