quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Café Europa: Emissão #57, de 04 de Fevereiro de 2013

1.ª Hora
01. THE JOY OF NATURE - "O Sopro do Vento Norte" (PT)
02. THE JOY OF NATURE - "Da Terra" (PT)
03. THE JOY OF NATURE - "Ainda Há Dias Em Que Se Vêem Ilhas Encantadas" (PT)
04. HULDUEFNI - "Paranoia (inside my mind)" (PT)
05. THERMIDOR - "Outro ‘Ancoradouro’" (PT)
06. TROBBING GRISTLE - "Pré gravações para “Desertshore" (GB)
07. NICO / X-TG (vocals by Antony) - "Janitor Of Lunacy" (GB)
08. NICO / X-TG (vocals by Blixa Bargeld) - "Abschied" (GB)
09. NICO / X-TG (vocals by Sasha Grey) - "Afraid" (GB)
10. NICO / X-TG (vocals by Marc Almond) - "The Falconer" (GB)

2.ª Hora
01. NICO / X-TG (vocals by Cosey Fanni Tutti) - "All That Is My Own" (GB)
02. NICO / X-TG (vocals by Blixa Bargeld) - "Mütterlein" (GB)
03. NICO / X-TG (vocals by Gaspar Noé) - "Le Petit Chevalier" (GB)
04. NICO / X-TG (vocals by Cosey Fanni Tutti) - "My Only Child" (GB)
05. NICO / X-TG (vocals by various artists) - "Desertshores" (GB)
06. REIGNS - "Corners & The Straights" (GB)
07. TERRY RILEY - "In The Summer" (USA)
08. SCOTT WALKER - "Corps De Blah" (USA-GB)
09. AMBIENCE - "Conflito" (PT)
Peter Christopherson

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Café Europa apresenta: X-TG "Desertshore / The Final Report" part.I


X-TG "Desertshore" 
Industrial Records, 2012
Assistir à demolição de dois edifícios – como já tivemos a oportunidade de ver, globalmente e em tempo real – pode ser um dos eventos mais traumáticos da nossa existência. Tanto maior será o trauma se soubermos que com a derrocada do betão, vidas inocentes são sacrificadas. Dizem uns, em nome de um deus menor, outros, em nome do dinheiro. Feita a transposição mental para o objecto desta prosa para a emissão desta noite no CE, será necessário manter o sangue-frio e afastados os vapores inebriantes do fascismo emocional que regra geral condimenta parti-pris e tomadas de consciência mais ou menos preconceituosas. “Desert Shore – The  Final Report” não é um disco dos Throbbing Gristle, embora tenha sido, em tempos relativamente recentes, uma hipótese com a velha formação que revolucionou o mundo da música moderna. É uma obra de colectivo para homenagear o falecido companheiro Peter ‘Sleazy’ Christopherson, que cessou de existir biologicamente em 25 de Novembro de 2010, mas cuja obra permanece intacta como tesouro inesgotável de maravilhas sonoras, com os Coil, com os Soi Song , com o Threshold Houseboys Choir, ou nos primeiros discos dos Psychic TV de Genesis P Orridge e, acima de tudo, com a lendária tetralogia de estúdio dos Throbbing Gristle entre 1977 e 81. Sleazy morreu, e tudo mudou depois.
Nesse estranho mês de novembro de 2010, a hipótese de ver os TG com a equipa original no nosso país foi de repente quebrada pela reprise de um velho amoque entre Genesis e o casal Chris Carter/ Cosey Fanni Tutti. Em 2007, aquando do lançamento do fantástico disco de regresso “Part 2 The Endless Knot”, perspectivava-se uma nova idade de ouro para antigos e novos aficionados do universo TG – a força plástica desse disco não foi infelizmente devidamente prosseguida. No entanto, preparava-se entre Sleazy e Genesis P.O. um projecto que poderia ainda salvar uma reputação basilar – enquanto ultimavam todos o sucessor de Thee endless knot, que se chamaria The Third mind movements , nascia a ideia de recrear “Desertshore” na sua totalidade, o álbum-referência de Nico, e um dos unanimemente favoritos dos T.G. Na digressão que apresentou “3rd Mind Movements”, já de si um trabalho algo diferente, menos contemporâneo e mais oldschool do que “The Endless Knot” tinha sido, a chamada “Desertshore installation” tomava forma, aparecendo inclusive na edição limitada vinil do seu álbum-gémeo.

Mas, como dissemos, tudo acabou com mais um arrufo e uma morte. No final do ano passado, os sobreviventes desses inverosímeis X-TG, decidiram que o material realizado era demasiado poderoso e valioso para se deixar morrer na prateleira. Chamou-se Antony, chamou-se Marc Almond, também a atriz Sasha Grey, que atrás já trabalhara para David Tibet e C93, assim como o amigo berlinense Blixa Bargeld e outros como Gaspar Noé, e vai de usar e retrabalhar as pistas deixadas por Sleazy e Génesis P.O., com um acabamento de construção impecável, para relembrar bem alto o génio de Peter Christopherson. Nada de errado e nada de mau até ao momento. Chris and Cosey deverão ter o aval distante de Génesis P.O. para poderem concretizar tal projecto, até porque se trata de um duplo álbum, sendo o segundo as derradeiras gravações dos tais X-TG, empacotadas aqui como “The Final Report”, repescando a gramática que marcou o início do grupo em 75, com as confusões entre 1st e 2nd Anual Report, já para não falar nas velhas K7’s de “Best Of”, em que o volume 2 foi divulgado ao mundo antes do primeiro, tal como nos álbuns. Em 81, quando o grupo actuou pela última vez na Califórnia, dando azo ao lançamento de “Mission of Dead Souls”, também tinham prometido que a missão terminara, mas em 82 a Industrial Records ainda lançou “Journey Through a Body”, um álbum inteiro de inéditos…
Portanto, com os TG ou os ex-TG, nunca se sabe quando imperará o silêncio definitivo. Assim que se ouve a voz de Antony, nos seus maneirismos já gastos, logo a abrir na versão de “Janitor of Lunacy”, receia-se o pior dos bocejos, ou pior ainda, o ataque de desinteresse auditivo que, regra geral, por muito que se teime, nunca nos deixa escutar uma obra imparcialmente até ao fim. Enquanto aquela coisa meio-falsete, meio-ganido entre Bryan Ferry e Nina Simone serpenteia entre as pistas impecavelmente operadas pelos anfitriões, lembramo-nos da prestação fria e hipnótica de Genesis P. Orridge e conclui-se que o segredo da magia nunca esteve na perfeição técnica da entrega, antes na rudeza brutal ou imperfeição impoluta do momento e atitudes criativos. Passado que está Antony a tornar um clássico num momento olvidável, temos Blixa Bargeld a atrapalhar “Abschied” – e nesta altura, os cold-feet do embaraço atacam o ouvinte. À segunda, ainda não bateu! Estará o conceito deste disco totalmente errado? Como se não bastasse, entra a insigne actriz Sasha Grey que vai oralizar um interessante mise-en-scène sonoro de Afraid – caramba! Uma das canções que fez de “Desertshore” uma coisa religiosa! – e redescobre-se o potencial sonífero de fortes recortes hipnóticos de uma abordagem semi-dub, sem dúvida um piscar de olho pouco convidativo ao velho conceito T.G. de ZyklonBzombie. Aqui, o escriba tem vontade de parar a leitura do CD. Respira fundo e olha para o listing – parece tranquilizar-se um pouco, em função de uma réstia de esperança, já que na continuidade de convidados de honra, segue-se o nome de Marc Almond, cobrindo “The Falconer”. Questiona-se em pensamento, “Será desta?”…
A sedução espiritual induzida em modo sagrado pela voz de Marc Almond tem sido o seu principal argumento, aliado à escolha criteriosa de poetas malditos e compositores proscritos que tem seguido, para consagrar um estilo inimitável de cantar. Se Scott Walker lhe foi em tempos role-model, agora o contrário podia bem ser verdade, sem prejuízo para o autor septuagenário do mirabolante “Bish Bosh”. “The Falconer” é exactamente onde a recriação de “Desertshore”, insufla fortemente para reatear as brasas moribundas na lareira da memória, numa cover que pela primeira vez parece pensar na homenagem sentida a Peter ‘Sleazy’ Christopherson. Acto contínuo, Cosey Fanni Tutti ataca “All That Is My Own” com aquela suavidade gélida com que sempre permeou os registos de CTI e Chris and Cosey e para a teatralidade teutónica industrial de “Mutterlein” reaparece Blixa – desta vez, talvez pelo alento gerado pelas duas últimas covers, até parece que o velho demolidor de prédios novos (sem piada à metáfora que iniciou este relatório) é um convincente contador de histórias. De resto, a expressão da base musical para a versão parece saída de “Heathen Earth”, o que é também um pensamento reconfortante.
Se bem repararam, até ao momento temos estado a fundamentar a nossa visão e audição deste tributo conjunto a Peter Christopherson e a Nico, com base no casamento entre a vocalização das estrelas convidadas e as instrumentações propriamente ditas dos X-TG, pesando bem o efeito de aglutinação e simbiose gerado. Há, no entanto, que sublinhar o esforço atento da produção do casal Carter/Tutti, talvez o aspecto mais forte de todo este pacote de emoções anunciadas, uma aprumo digital impecável e acima de tudo indiciador da mestria da mistura, ideias que decerto terão nascido com o projecto quando ‘Sleazy’ ainda estava vivo. Com seis temas decorridos, o equilíbrio entre o insípido e o interessante não faz justiça ao empenho profissional e emocional evidenciados, e não tenhamos ilusões porque, pelo menos até ao final desta primeira metade do duplo álbum X-TG “Desertshore/The Final Report” as coisas não vão mudar. Gaspar Noé nada adianta em “Le Petit Chevalier”, que no original era interpretado pelo pequeno Ari Boulogne, filho da relação entre Nico e Alain Delon, a não ser uma versão altamente mecanizada, onde se reconhecem sons industriais de há trinta e tal anos – ao menos isso! – de resto a vocalização é a pior de todo o álbum, até mais enfadonha que a de Antony, mesmo que os efeitos cyborg procurem disfarçar a aridez inexpressiva da prestação vocal de Noé. Repetindo o padrão, lá vem um momento mais inspirado – de novo com a patroa Cosey Fanni Tutti, “My Only Child” é, talvez, com a cover de “The Falconer”, assumida por Marc Almond, o grande momento deste “Desertshore” reinterpretado pelos ex-TG. Segue-se uma melopeia conjunta, com efeitos e leituras algo indecifráveis, atribuída às “Desertshore Voices”, que incluem Chris Connelly, Bee, Tibet, Drew McDowell, Daniel Miller, Stephen Thrower, entre outros dos que colaboraram e trabalharam a sério em vida com ‘Sleazy’, para além dos anfitriões da homenagem, só para citar os mais meritoriamente conhecidos, numa imagem sónica de bons augúrios para a prossecução de glória de um Artista tão grande com a vida ela própria, de um homem que, oriundo da aristocracia britânica, optou por seguir o seu próprio caminho de risco, navegando sempre com a segurança de uma vela na tempestade, entre as gigantes ondas do preconceito, da irremediável tacanhez, da corrupção, da estupidez disfarçada de pragmatismo, e da inveja. A propósito deste tema, por momentos, e se não fosse a lista não incluir o nome do também malogrado Jhonn Balance, estaríamos tentados a jurar a pés juntos que, ou se trata de alucinação auditiva, ou vontade dos autores em não o revelar, mas, entre todas as vozes que de Peter Christopherson se despedem, aos 2m29s, há uma voz muito familiar que diz qualquer coisa como “he who knows me may pass on beyond, and meet me on a desert shore”.
Em suma, um disco de qualidade, cujos elevados propósitos humanos justificam, à priori, uma dedicação incondicional, uma audição atenta, repetidas quantas vezes necessárias, para digerir uma ou outra incongruência e, a meio de um percurso para o fim do qual falta ainda ouvir o disco que encerra a história conhecida dos Throbbing Gristle, ter fé que o adeus final possa só ser um êxtase e não uma agonia. 
Peter Martin Christopherson, o filho de Lady Frances Tearle Christopherson e de Sir Derman Christopherson, reitor do Magdalene College, de Cambridge, ‘Sleazy’ Christopherson como mundialmente se tornou famoso pela capas que ajudou a conceber para grupos como os Pink Floyd, Genesis e Peter Gabriel, ou ainda os Van der Graaf Generator, entre muitos outros clientes da Hipgnosis, pelos vídeos que realizou profissionalmente para a então emergente MTV, criando um paradigma de revolução estética num negócio de milhões, pela objectiva crua e dura que impôs à fotografia no último quartel do século XX, mas sobretudo pela música e sons que criou ao longo de 35 anos, merecerá e muito este e todos os outros tributos que possam acontecer no futuro.
O afastamento de Genesis P. Orridge dos TG e X-TG nada tem a ver com isto, nunca foi motivado por desavenças com ‘Sleazy’. Numa unidade criativa chega sempre o dia em que cada um vai à sua vida; se aconteceu com os Beatles, ainda não aconteceu com os Stones, se ainda não aconteceu com os Laibach, lamenta-se com pesar que a missão dos Throbbing Gristle tenha terminado…uma vez mais.

Na próxima semana no Café Europa, The Final Report by X-TG.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Café Europa: Emissão #56, de 28 de Janeiro de 2013

1.ª Hora
01. BLOOD AXIS - "Bearer of 10.000 Eyes - Lord of Ages " (USA)
02. BLOOD AXIS  & ROBERT N. TAYLOR - "Universal Soldier’s Song” (USA)
03. CHANGES - "Anthem For Freedom (new version)" (USA)
04. OF THE WAND AND THE MOON - "I Crave for You" (DIN)
05. NEBELUNG - "Regen In Der" (GER)
06. CADAVEROUS CONDITION - "A Dream Within a Dream" (GER)
07. STURMPERCHT - "Der Tanz Des Tatzelwurms" (AUT)
08. STEIN – “Wehes Scheiden" (GER)
09. THE SOIL BLEEDS BLACK - "Mineralia" (USA)
10. C.O.T.A. - "Come Children Come" (USA)
11. KING DUDE - "Lord, I’m Coming Home" (USA)
12. NAEVUS - "Song In Suspension" (GB)
13. IN GOWAN RING - "Boat of the Moon" (USA)
2.ª Hora
01. ROME - "Demon Me (Come Clean)” (LUX)
02. SOLBLOT - "Alderdomen" (SWE)
03. THE SONG SPARROWS - "Rhymes Before Spring” (IT)
04. DIN BRAD - "Of, Of, Viajä” (ROM)
05. TROBAR DE MORTE - "Arianihod” (ESP)
06. MANI DEUM- "The Cat And The Crow" (GRE)
07. SOPOR AETERNUS & THE ENSEMBLE OF SHADOWS - "A Strange Thing To Say" (GER)
08. ARCANA- "In Memorium" (SWE)
09. GAË BOLG - "Thème Du Fou " (FR)
10. DERNIÈRE VOLONTÉ - "Le Quai De La Gare” (FR)

 
BLOOD AXIS




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Café Europa Apresenta: Fire + Ice "Fractured Man" ‎(Fremdheit, 2012 UK)

Este Outono chegou-nos às mãos o mais recente trabalho do britânico Ian Read, sob a designação colectiva de Fire + Ice, o grupo móvel que vem assegurando desde 1991, data em que saiu do grupo Sol Invictus, no qual com o seu líder Tony Wakeford e o coadjuvante Karl Blake, gravou três álbuns memoráveis e que ainda hoje são a marca de água do som ancestral dos Sol. A razão de tal não é pertença exclusiva da visão meio severa, meio irónica de Wakeford sobre o Mundo e os humanos; a voz e a sabedoria de Read marcaram indelevelmente “Against The Modern World”, “Lex Talionis” e “Trees in Winter”.
Quando há mais de 20 anos lançou “Gilded by The Sun”, a sonoridade Fire + Ice era ainda um reflexo multifacetado do seu percurso musical ainda recente. Fortemente alicerçada no conhecimento pagão europeu anglo-saxónico e misticismo nórdico-germânico, onde se incluem naturalmente o Runelore e os Velhos Saberes, a “Readmal” é, por assim dizer, um longo processo no caminho da espiritualidade, que não se preocupa com a quantidade mas apenas com a qualidade. As ramificações da actividade de investigação de Ian Read alargaram-se nos últimos anos, sabendo que pelo menos já não se limitam à Rune Guild, para qual fez o trabalho “Rûna” que em 1996 lhe valeu o grau de Mestre, tendo assumido algures nos anos 90 a liderança da ordem dos “Illuminates of Thanateros”, que se move na área paradigmática da “Magia do Caos”, e através da qual Read é ainda editor principal da revista “Chaos International”. Daí que para atender a tudo isto, seja necessário um uso sábio do tempo. E o tempo sabe impor-se sabiamente – ao cabo de doze anos os Fire + Ice lançaram finalmente o sucessor do histórico álbum de 2000, “Birdking”.
Fractured Man” é um título que parece estranhamente reflectir tudo o que apontámos acima, mas não será esse certamente o propósito. Ian Read decidiu retribuir todos os favores e generosidade com que os seus amigos o foram premiando nos últimos 25 anos. Desde Douglas Pearce, dos Death in June, a Michael Moynihan e Annabel Lee, dos Blood Axis, passando por outros músicos como Michael Laird e Terry Davey, os convidados de honra fazem de “Fractured Man” um trabalho que obrigatoriamente poria a salivar um batalhão de darkfolkers, sedentos de Fire + Ice, após tantos anos de espera. “Birdking” ainda hoje é celebrado como um dos discos charneira do movimento de folk pagão que em parte evoluiu do pelotão oitentista do folk apocalíptico, vagamente aparentado com a cena industrial, mágica e experimental. Mas, como dizemos atrás, os anos passam e alguns músicos e compositores, focados apenas no ideal da qualidade contra a quantidade prevalente no mundo moderno, apuram igualmente a sua criação. “Birdking” era ele igualmente um regresso após um hiato de quatro anos, quando “Rûna” e “Seasons Of Ice” tinham delimitado uma nova etapa na carreira de Fire + Ice, depois dos três primeiros álbuns entre 1992 e 94, todos eles impregnados de um tenaz espírito de campanha. O álbum de 2000 dos Fire + Ice, como a outros seus semelhantes, tinha elevado bem a fasquia da perfeição, da solenidade ritual, da poesia “escáldica” e “éddica”. Por comparação e sequência, qualquer obra que lhe sucedesse, perderia em comparação, sem a intervenção do Tempo.
À maneira de la Palice, doze anos são mais que uma década. As canções presentes em “Fractured Man” refletem-no bem; Read envelheceu de uma forma notável. Os 60 anos estão à porta. A comunhão com os temas que canta torna-se mais forte, porque o seu conhecimento é maior e mais eficaz. Nada é deixado ao acaso, e no entanto, tudo parece mais simples. A primeira diferença em relação ao antecessor “Birdking”, é a produção – menos intencionalmente sofisticada, mais aberta e solta, pela qual as construções dos temas fluem ainda mais naturalmente. Contudo a variedade de instrumentos, a composição menos marcada e aparentemente mais repentista, colocam o álbum de imediato num patamar de agradabilidade auditiva que não é logo captado nem à primeira nem à segunda audição. “Fractured Man”, à semelhança de alguns dos álbuns que o Café Europa tem vindo a divulgar, é um disco crescente. Só podia ser – esta é a antítese de tudo o que é feito para vender, para obter lucro rápido nesta sociedade de agiotismo em que governantes dão o mau exemplo, em que eles próprios se afundam doutros agiotas maiores, num espectáculo degradante e terminal. O sentido da obra de Fire + Ice é o do menor contacto possível com as estruturas corrosivas do mercado, daí que a frequência dos discos seja cada vez menor, daí que a sua qualidade seja para durar, daí que o prazer (leia-se felicidade) do ouvinte vá crescendo ao longo das audições sucessivas, de resto como sucedeu a este vosso humilde escriba. 
O caminho em que Ian Read se move é um caminho lento, atento aos sinais e que exige paciência, introspecção e tranquilidade. Não obstante, está omnipresente uma dinâmica espiritual que sabe reunir os esforços colectivos, nascendo daí a obra comunitária com os indivíduos que atrás mencionámos. E o primeiro a marcar presença no instrumental de abertura é Douglas Pearce, no instrumental “Caratacus”, uma peça de guitarra um pouco ao modo dos próprios Death in June, um tema que estabelece e define a orientação musical renovada que presidirá a todo o álbum. Segue-se o reencontro com as canções escritas de parceria com os alemães Sonne Hagal, em “Treasure House”, sem sombra de dúvida um dos mais belos momentos de “Fractured Man”, contando com a guitarra de Vurgart e o bodhrán de Michael Moynihan. “Fractured Man” é o álbum em que a escrita de Ian Read mais se agiganta, evidenciando bem o seu alto conhecimento de mitologia e poesia germânicas pagãs. É caso para dizer que um saber como este não se consegue só com evidências da vida prática nem com um saco cheio de equivalências, carregado às costas como um reles salteador de estrada. Ian Read, como Mestre de Cultura e Mitologia dá-nos com distinto recorte poético uma visão didáctica de quase tudo que desconhecemos, graças a séculos de obscurantismo cristão. O próprio tema “Fractured Man” aponta para as histórias e lendas de viandantes que na noite dos tempos cruzavam os caminhos, com a identidade de deuses testando ou enganando os incautos, inconscientes da presença do falso deus sob a mascara imponente. “Nimm” é igualmente um tema com música dos Sonne Hagal cantado em alemão e o lado A da edição em vinil 12 polegadas fecha com “Have You Seen?” onde se retomam as figuras lendárias do imaginário colectivo da velha Grã-Bretanha, em que surgem Grey Heron, Cutty Wren e a Jumping Hare numa breve narração poética de floresta, homens de capote e capuz e rapazes sedentos de sangue e vingança. E nesta passagem de testemunho para o outro lado do álbum, apercebemo-nos de como se impõe a leitura dos poemas de Read, enquanto a música circundei-a pelas colunas. A música dos Fire + Ice mudou, tornou-se mais inusitada e são os poemas que a tornam de novo nossa. Em todo este quadro que procurávamos elaborar, no sentido de motivar pelo menos a audição de “Fractured Man” de Ian Read e os Fire + Ice, existem ainda alguns pontos dignos de menção a começar pela excelente capa do pintor alemão Werner Wultsch. Alguns dos temas, em que surgem tanto o violino de Annabel Lee e o bodhrán de Michael Moynihan, foram gravados e produzidos por Bob Ferbrache em Vermont, sendo depois misturados pelos dois produtores principais John French e Joseph Cerimeli. 

Com tanta gente a colaborar de boa vontade, podemos bem dizer que “Fractured Man”, apesar da aura negativa do seu titulo, é um disco positivo e real apanágio de verdadeira camaradagem. De resto vem-nos à memória imagens da ultima digressão mundial dos Death In June, celebrando os 30 anos de carreira, em que num concerto contavam com a abertura dos Fire + Ice, assim que Ian chamou Douglas para uma colaboração em palco logo o publico entrou em delírio gritando pelo nome de Douglas; este visivelmente irado enquanto punha a guitarra a tiracolo, gritava “ Não! Gritem mas é por Ian Read e Fire + Ice! Fire + Ice!” Não há lugares para estrelas neste círculo de Amigos e Camaradas. Nem para estrelatos nem para disputas, grandes ou pequenas, como na que Ian Read canta, com palavras imortais do grande Rudyard Kiplingam “Jubal and Tubal Cain“ sobre os descendentes de Cain, condenados à eterna discórdia semita de se quererem sempre mostrar-se melhor que o outro, mesmo entre irmãos, arquétipos estes tão caros às enciclopédias maçónicas, afinal de contas o princípio base do liberalismo económico em que vivemos, mascarado do espírito de competitividade. Que Ian Read se tenha lembrado do poema de Kipling no presente momento vivido no mundo é sinal da sua perspicácia, mesmo para alguém que se diz já não se preocupar com a humanidade em geral. Depois de “Mr. Wednesday”, “Verloschen” e “Aelfsiden” o álbum fecha com “Fractured Again” de novo com Douglas P. “Fractured Again” será quiçá auto-biográfico dado que levanta demasiadas questões reflexivas feitas na segunda pessoa, em discurso auto-analítico, mas carregando contudo um aviso àqueles que tentarem por tentar:
 “Pagando o preço do Poder, assim que o empunhares; Brilharás como fogo nas presas do Caos”.
Na capa interior, contraposta à folha das líricas, surge uma grande fotografia a cores, em pose de família com Annabel Lee ao meio e Michael e Ian um de cada lado, vestidos de negro, mas envergando roupas de confecção nitidamente tradicional, vê-se nos seus rostos sinais da passagem do tempo como a plenitude da obra bem feita, Ian Read, tal como o deus que caminha pela floresta tem um chapéu de abas largas na cabeça. Há só uma maneira de passar de mão em mão o testemunho da tradição.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Café Europa: Emissão #55, de 21 de Janeiro de 2013

1.ª Hora
01. X-TG (vocals by Sasha Grey) - "Afraid" (GB)
02. RAKSHA MANCHAM - "Hâmilu Al-Hawa" (BEL)
03. KARNNOS - "Strife … To Find A Tortuous Way" (PT)
04. SOL INVICTUS - "Abbatoirs Of Love" (GB)
05. FIRE + ICE - "Fractured Man" (GB)
06. FIRE + ICE - "Caratacus" (GB)
07. FIRE + ICE - "Treasure House" (GB)
08. FIRE + ICE - "Nimm" (GB)
09. CURRENT 93 - "The Ballad Of Bobby Sunshine" (GB)
10. THE INCREDIBLE STRING BAND - "The Minotaur's Song" (GB)
11. INNER GLORY - "Evening Of a New Day" (IT)
12. SIEBEN - "The Rattle Of Drums" (GB)

2.ª Hora
01. NICO - "Afraid" (GER/USA)
02. SALLY DOHERTY - "I Am River" (GB)
03. TUHAT KUOLEMAA SEKUNNISSA - "Näkyjä" (FIN)
04. SILENT LOVE OF DEATH - "The Sacred Altar" (ESP)
05. ARGINE - "In Silenzio (Moon Version)" (IT)
06. CURRENT 93 - "The Use Of Compassion Explained" (GB)
07. FIRE + ICE - "Have You Seen?" (GB)
08. FIRE + ICE - "Jubal And Tubal Cain" (GB)
09. FIRE + ICE - "Aelfsiden" (GB)
10. FIRE + ICE - "Fractured Again" (GB)
11. NEBELKORONA - "Morgenstunden" (GER)
12. OM - "Rays Of the Sun / To The Shrinebuilder" (USA)
13. SCOTT WALKER - "Epizootics" (USA-GB)

Ian Read

Destaque da emissão para Fire + Ice "Fractured Man" CD Frendheit 27, UK 2012

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Café Europa: Emissão #54, de 14 de Janeiro de 2012


1.ª Hora
01. DEATH IN JUNE – ” Love Murder” (GB)
02. DEATH IN JUNE - ”The Enemy Within” (GB)
03. FIRE + ICE – ”Nimm” (GB)
04. STEIN - ”Verlorener Posten” (GER)
05. BELBORN - ”Tod Ist Die Liebe” (GER)
06. FRÄKMÜNDT – Tüüfelsbrogg” (SUI)
07. ALLERSEELEN - ”Ob Auch Mein Herz So Funkelt” (AUT)
08. ALLERSEELEN + SANGRE CAVALLUM - ”Cantaros D'Euforia” (AUT+POR)
09. O PARADIS - ”Marqués Du Pubol” (ESP)
10. DER BLUTHARSCH & TICOTLH – ”Abacus” (AUT)
11. CULT OF YOUTH - ”Prince Of Peace” (USA)
12. KING DUDE - ”You Can Broke My Heart” (USA)

2.ª Hora
01. JOYAUX DE LA PRINCESSE  - "Messages 1940-1943: Edités Au Profit Des Victimes Des Bombardements Par "PATHE-MARCONI" (FRA)
02. JOYAUX DE LA PRINCESSE  - "A_V.Alexandrov (On The German’s Land)" (FRA)
03. DERNIÈRE VOLONTÉ - "Der Zörn Gottes" (FRA)
04. DERNIÈRE VOLONTÉ - "Les Orages Du Crime" (FRA)
05. A CHALLENGE OF HONOUR - "Theme For Play The Game" (HOL)
06. H.E.R.R. - "Fruhlings Erwachen" (HOL)
07. WAPPENBUND - "Dead March (In Gedenken)" (GER)
08. TRIARII - "Iron Fields" (GER)
09. PUISSANCE - "Evolution" (POL)
10. LES JUMEAUX DISCORDANTS - "Die Götter Sind Hier'" (IT)
11. LES SENTIERS CONFLICTUELS & ANDREW KING - "'The Fall'" (FRA-GB)
12. FIRST HUMAN FERRO feat. ALBIREON - "'Prosa Profana'" (UKR-IT)
Dernière Volonté

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Café Europa: Emissão #53, de 07 de Janeiro de 2013

1.ª Hora
01. SANGRE DE MUERDAGO - "Vellos Caminos de Vellas Arbores" (ESP/GAL)
02. SANGRE DE MUERDAGO - "Hacia Tierras Lejanas" (ESP/GAL)
03. SANGRE DE MUERDAGO - "Madeira de Teixo, Pedra de Castro" (ESP/GAL)
04. SANGRE CAVALLUM - "Velho, Velho" (PT)
05. ÀRNICA - "Tu Tierra" (ESP/CAT)
06. ERMO - "___" (PT)
07. ERMO - "Destornado" (PT)
08. AMPS FOR CHRIST - "Janitor of Lunacy" (USA)
09. AMPS FOR CHRIST - "Wishful Thinking" (USA)
10. THE SOCIETY OF THE YELLOW SIGN (STORMCLOUDS) - "Cassilda's Song" (GB)
11. COMUS - "All The Colours Of Darkness" (GB)
12. JAHRTAL - "Das Schulkind" (GER)
13. TRINITHOS - "Fur Die Ewigkeit" (GER)

2.ª Hora
01. VÄRTTINÄ - "Tuulen Tunto" (FIN)
02. MOON FAR AWAY - "And Light Shineth In Darkness ..." (RUS)
03. DAEMONIA NYMPHE - "Nikodemos" (GRE)
04. AISTE SMILGEVICIUTE IR SKYLE - "Pinavija" (LIT)
05. VIE SINÄ LEENA - "Kunnes Pyöreä Kuu" (FIN)
06. SAGENTOETER - "… But Warriors Are Marching" (GER)
07. ZLYE KUKLY - "Son" (RUS)
08. SCHATTENSPIEL - "Der Flug Des Schmetterlings" (GER)
09. KING DUDE - "In The Eyes Of The Lord" (USA)
10. NAEVUS - "The Stomach" (GB)
11. LARK BLAMES - "Cups" (GB)
12. X-TG - "All That Is My Own ( vocals by Cosey Fanni Tutti)" (GB)
13. X-TG - "Janitor of Lunacy" (vocals by Antony) (GB)

Àrnica