terça-feira, 20 de outubro de 2015

Café Europa Radio Show #169

01. SCORPION WIND - "The Path Of The Cross" (GBR/USA/AUS) (heaven sent - 1996)
02. BOYD RICE & FRIENDS - "Forgotten Father" (GBR/USA/AUS) (wolfpact - 2002)
03. DEATH IN JUNE & BOYD RICE - "Storm On The Sea (Out Beyond Land)" (GBR/USA/AUS) (alarm agents - 2004)
04. KNIFELADDER - "Born Under Fire" (GBR/AUS) (the spectacle - 2006)
05. AEAEA - "Climb" (USA) (drink the new wine - 2014)
06. AEAEA - "Drink The New Wine" (USA) (drink the new wine - 2014)
07. BLACK SUN PRODUCTIONS AND VAL DENHAM - "Absinthe" (SUI/GBR) (somewhere between desire and despair - 2009)
08. JOSEF DVORAK - "4" (AUT) (feat. fuckhead & der blutharsch and the infinite church of the leading hand - sous l'arbre de science - 2014)
09. JOSEF DVORAK - "3" (AUT) (feat. fuckhead & der blutharsch and the infinite church of the leading hand - sous l'arbre de science - 2014)
10. HARVEST RAIN - "Nightwave" (USA) (nightwave - 2015)
11. HARVEST RAIN - "The Needles Of God" (USA) (nightwave - 2015)
12. KING DUDE - "The Heavy Curtain" (USA) (song of flesh & blood- in the key of light - 2015)
13. SPLINTERSKIN - "A Bed Of Burning Leaves" (USA) (v.a. oak folk - 2010)
14. WALDTEUFEL - "Unter Eine Eiche" (GER) (v.a. oak folk - 2010)
15. TEARS OF OTHILA - "Whispers From The North" (ITA) (renassaince - 2008)
16. SANGRE DE MUERDAGO - "Mensaxeiro Do Pasado" (ESP) (o camiño das mans valeiras - 2015)
17. SANGRE DE MUERDAGO - "O Conxuro" (ESP) (o camiño das mans valeiras - 2015)
18. HAR BELEX - "Gernika" (ESP) (chandelle - 2014)
JOHN RUSSELL MURPHY
(July 11, 1959 – October 11, 2015)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Café Europa Radio Show #168

01. NATURE AND ORGANISATION - "Introduction" (GBR) (snow leopard messiah - reed.- 2015)
02. NATURE AND ORGANISATION - "Wicker Man Song" (GBR) (snow leopard messiah - reed.- 2015)
03. NATURE AND ORGANISATION - "Blood Of Solitude I" (GBR) (snow leopard messiah - reed.- 2015)
04. NATURE AND ORGANISATION - "Bloodstreamruns" (GBR) (snow leopard messiah - reed.- 2015)
05. CURRENT 93 - "The Final Church" (GBR) (swastikas for noddy - crooked crosses for the nodding god - reed. - 2015)
06. CURRENT 93 - "The Summer Of Love" (GBR) (swastikas for noddy - crooked crosses for the nodding god - reed. - 2015)
07. CURRENT 93 - "Beau Soleil" (GBR) (swastikas for noddy - crooked crosses for the nodding god - reed. - 2015)
08. CURRENT 93 - "After Tomorrow" (GBR) (swastikas for noddy - crooked crosses for the nodding god - reed. - 2015)
09. OF THE WAND AND THE MOON - "A Pyre Of Black Sunflowers" (DIN) (the lone decent - 2011)
10. HARVEST RAIN - "Coat Of Arms" (USA) (gentile peasantry - 2012)
11. HARVEST RAIN - "Nightwave" (USA) (nightwave - 2015)
12. THEODOR BASTARD - "Vetvi" (RUS)  (vetvi - 2015)
13. IN GOWAN RING - "Thousands of Bees" (USA) (the serpent and the dove - 2015)
14. IN GOWAN RING - "Julia Willow" (USA) (the serpent and the dove - 2015)
15. LUPERCALIA - "Tribe" (ITA) (florilegium - 2004)
16. VITTORIO VANDELLI - "My Heart As Dry As Dust" (ITA) (day of warm rain in heaven - 2004)
17. ROMA AMOR - "Lies"  (ITA) (una torbida estate - 2015)
18. ROMA AMOR - "Tu ... Ancora Tu!" (ITA) (una torbida estate - 2015)
19. SANGRE DE MUERDAGO - "O Camiño Das Mans Valeiras" (ESP) (o camiño das mans valeiras - 2015)
20. SANGRE DE MUERDAGO - "Xordas" (ESP) (o camiño das mans valeiras - 2015)
21. ALLERSEELEN - "Neunmondmesser" (AUT) (terra incognita - 2015)
22. ALLERSEELEN - "Flamme (2015)" (AUT) (terra incognita - 2015)
23. 7PM RITUAL - "A Shadow From The Past" (GER) (:08:16:02: - 2015)
24. ROME - "Der Wolfsmantel (Remastered)" (LUX) (anthology 2005-2015 - 2015)
25. ROME - "Reversion (Remastered)" (LUX) (anthology 2005-2015 - 2015)
ROMA AMOR

ROME 

sábado, 12 de setembro de 2015

Café Europa Radio Show #167 - No Festival Entremuralhas 2015

Setembro já se instalou, anunciando no calendário que algum Outono chegará, mas entretanto, ao sol tórrido do fim de Verão, espraiam-se já as memórias do último Entremuralhas, no castelo de Leiria. Mais um ano, mais um festival, como o conhecemos, sempre diferente dos outros todos, que se afundam em ninharias superficiais, quase sempre propriedade dos senhores do mercado, que parecem fazer criação de clientes à custa da prostituição musical. Aqui há sempre surpresas a soar em palco e isso não pode ser comprado por quaisquer magnatas do consumo – mesmo que, às vezes, o cartaz pareça extremamente diversificado como o foi neste ano de 2015.

Ao contrário dos cartazes de anos recentes, o Entremuralhas de 2015 apresentava uma variedade desafiadora – contrariamente à sempre generosa percentagem de bandas de dark e neo-folk, por vezes em detrimento do número de bandas góticas propriamente ditas, o cartaz deste ano propunha um ecletismo assinalável. Talvez dessa diversidade nascesse um certo espírito de agitação saudável que pontuou o ambiente dentro do castelo durante o último fim-de-semana de Agosto. De resto, e com as sucessivas e bem-sucedidas edições, o público do Entremuralhas foi-se fidelizando, perpassando gostos pessoais, alargando a sua abrangência a núcleos geográficos cada vez mais presentes de ano para ano. Com setores do público falando inglês, espanhol, francês, alemão, italiano, norueguês, e até russo, era de esperar três dias de confraternização internacional, tanto nos terreiros como nos palcos.
A primeira noite do festival, normalmente mais curta, a funcionar quase sempre como aperitivo, teve este ano um pouco mais de tempo de antena, mais protagonismo, tendo a Fade In dado um exemplo de coragem ao trazer de volta a figura no mínimo excêntrica da britânica LENE LOVICH, antiga estrela do pop new wave, vagamente inspiradora e instigadora do proto gótico, imagem que no alegre espírito de 1979, esse ano maravilhoso que tornou o punk inteiramente recuperado pelo sistema, ainda não era mais que uma vaga referência de curiosidade de feira de diversões. A abrir a noite de 27, os portugueses PHANTOM VISION deram o mote para a verdadeira essência gothic rock do festival Entremuralhas. Revisitar com classe, com imaginação e visível domínio musical a tradição iniciada há mais de 30 anos pela explosão britânica do género, é obra de igual coragem. Atuação totalmente à vontade do grupo português, boa aceitação por parte do público que estava entusiasta e sempre pronto para dar largas à sua animação.     
De seguida entrou, de imediato na liça, a italiana TYING TIFFANY; sem grandes artefactos cénicos, o que não significa ausência de presença em cena, assim como energia e competência a toda a prova, TYING TIFFANY, com o seu electro-pop gótico, animou as centenas de pessoas frente ao palco, preparando-as para a euforia da LENE LOVICH BAND.

Veterana do pós-punk britânico, LENE LOVICH atingiu a idade supostamente adequada à reforma, mas isso não é argumento válido na sua visão das coisas. Divertida, comunicativa e performer a 100%, LOVICH revisitou durante mais de uma hora os seus hits dos anos 80, garantindo uma boa justificação para uma parcela substancial do preço do passe de entrada para os três dias do Entremuralhas. Por momentos fomos transportados nas asas do som aos tempos em que a cantora britânica estava presente várias vezes ao dia nas estações nacionais e locais de rádio deste país atlântico. Graças à popularidade dos programas de autor em que figurava, a sua fama por cá catapultou-se para níveis impensáveis na altura, e este terá sido sem dúvida um dos melhores mercados de LENE LOVICH. Volvidos 35 anos, a juventude de origem e idade variada presente neste regresso, retribui-lhe parte dessa mesma glória passada. Musicalmente, o seu fairground gothic-pop esteve bem enquadrado no espírito desta primeira noite do festival, e terá sido no mínimo um fenómeno curioso de assistir, ver os que eram maioritariamente filhos dos que a ouviam em 79, a trautear canções como “Bird”, “Lucky Number” e “Home”. Em suma, um reencontro geracional que não podia encerrar o primeiro dia do Entremuralhas de melhor maneira.
No cartaz para o segundo dia, o interesse do Café Europa residia sobretudo na presença dos britânicos 6th COMM do ex-Death in June e ex-Mother Destruction, PATRICK LEAGAS, sendo ele também a figura do festival com quem tínhamos agendada a única entrevista a realizar, já que dificilmente seria negociável uma entrevista formal com os eslovenos LAIBACH.
A segunda jornada do Entremuralhas começava com uma substituição – na impossibilidade da neozelandesa Jordan Reyne estar presente nesta edição, a entrada dos conimbricenses A JIGSAW, duo de folk intimista, com toadas folk norte-americanas na maior parte dos seus temas, não estando longe de Michael Gira, Lux Interna e King Dude, embora por vezes relembrando grupos europeus como Spiritual Front ou Rome. Foi com esta solidez toda que os A JIGSAW enfrentaram o, normalmente exigente mas receptivo, público que enche a nave das ruínas da Igreja da Pena, com um som límpido, acústico mas cheio de poder, pleno de intimidade da alma, invariavelmente arrancando da assistência troadas de palmas sentidas. Os A JIGSAW ficaram com a responsabilidade de uma substituição e isso significou aproveitar ao máximo a oportunidade de brilhar.
Em formato duo, os portugueses abriram com "Red Pony", canção retirada de “Like The Wolf” (registo de 2010), e apresentariam ao longo da sua set-list a compilação “No True Magic”, através de temas como "Them Fine Bullets",       "No True Magic", "Without The Prize" e "Hardly My Prayer". A segunda presença nacional neste cartel do Entremuralhas 2015 saldava-se então por outro polegar bem levantado, abrindo os portões para mais uma noite de boa música.
Quem iria encerrar os concertos desse dia na nave da Igreja da Pena seriam os alemães KELUAR. Depois de uma recente passagem por Portugal, os KELUAR entraram forte com "Instinct", tema do single retirado do mais recente ep, “Panguna”, o qual teve honras de destaque neste concerto, apresentando igualmente as restantes canções "Panguna" e "Volition". Num concerto demonstrador de competência e, porque não dizê-lo, espírito de festival, Sid Lamar e Alison Lewis garantiram um bom espetáculo que, para além do mais recente ep, apresentou também alguns temas de “Vitreum”, disco editado em junho do ano passado, e também do ep “Ennoa”, que assinalou a estreia do duo nos registos de estúdio. 
Sven, o agente de management dos 6th COMM tinha-nos prometido uma conversa de alguns minutos com PATRICK LEAGAS, um pouco antes do concerto, e durante as nossas deambulações pelo Castelo de Leiria, ao descermos pelas escadarias que ligam o terreiro da Igreja da Pena à entrada do castelo, encontrámos o próprio LEAGAS, que nos cumprimentou afavelmente mas que, para nossa imensa pena, nos referiu que a entrevista já não seria possível por falta de tempo.
Não só o atual duo tinha perdido algum tempo a chegar do hotel ao castelo, como também, segundo nos foi mais tarde revelado, o próprio PATRICK LEAGAS tinha sido atacado por um cão vadio, à entrada do castelo, incidente que deixou todos os envolvidos com uma estranha sensação, sendo esta a alegada última atuação dos 6th COMM, e curiosamente a primeira em Portugal, em 29 anos de existência do grupo que foi um rebento da matriz DiJ.

Mesmo assim, LEAGAS não declinou a hipótese de assinar alguns dos seus discos no final do concerto, o qual, malgrado todas estas contrariedades no dia da despedida dos 6th COMM, resultou num dos melhores espetáculos dados em Portugal até ao momento, pelos três elementos que fundaram os Death in June (para além de Patrick, o próprio Douglas Pearce que ficou com os Di6, e também Tony Wakeford, à frente dos Sol Invictus). A energia e concentração que LEAGAS evidencia em palco traduzem bem o seu profissionalismo, mesmo usando backing tracks no seu laptop, uma característica que continua ainda a custar a entrar na cabeça de alguns elementos do público português, cujas opiniões curiosas se tornam no mínimo risíveis, nomeadamente quando resumem o espetáculo dado pelos 6th COMM a um show de karaoke!
Reinterpretando, numa hora e pouco, os grandes sucessos do grupo, e apresentando-se como velhos sobreviventes dos anos 80 (apontando igualmente para alguns dos presentes como companheiros de estrada em matéria de idade), PATRICK e a sua atual companheira trouxeram de volta, com uma urgência quase atlética que hipnotizou emocionalmente o público, temas clássicos que já vinham dos tempos dos DiJ, como “Foretold”, “Born Again”, “Othila” e “The Calling”, só para citar alguns da obra prima “Nada!”, ainda na companhia de Douglas Pearce.
Sabendo que, alegadamente, este seria o derradeiro concerto dos 6th COMM enquanto tais, só se pode epitomar de Mágico todo este desfile de memórias, que corrobora a máxima literária de que os melhores livros são aqueles que nos dizem exatamente aquilo que já sabíamos, o mesmo se podendo aplicar ao adeus às armas dos 6th COMM no nosso país e nesse espaço simbólico que é o Castelo de Leiria.
Como não assistimos ao concerto dos MOTORAMA, registamos apenas a sua passagem pelo palco Alma, tendo o coletivo russo alcançado a admiração de muitos presentes com quem trocámos impressões.
OS [:SITD:], cabeças de cartaz do dia dois do Entremuralhas, foram os responsáveis por um concerto dinâmico e intenso, curiosamente motivando opiniões contrárias. O registo eletro-industrial não está para floreados e rendas góticas portanto, terá sido por isso que alguns elementos da assistência se tenham afastado inicialmente, e por assim dizer como graça, do moshpit. A abrir o Palco Corpo nessa noite, os [:SITD:] mobilizaram bem quem tem algumas costelas de industrial no corpo, independentemente de precisarem ou não ir buscar mais uma cerveja, ou mais uma deliciosa sandes de lombo ou simplesmente integrar as longas filas do WC. Não generalizando os pontos fracos do género ou mesmo os traços menos conseguidos do grupo, não se pode dizer que tenha sido sequer uma performance sofrível, e aqui é que reside veramente o lado positivo desta edição do Entremuralhas – obrigar os diferentes parti-pris a conceder aos outros géneros alguma atenção e valor, e para isso, já sabemos que não se tem necessariamente de estar encostado ao palco, a gritar ou a fazer mosh e outras actividades mais enérgicas que, como bem se sabe, e passe mais uma vez a tirada humorística, não costumam ter lugar neste festival.
O pressuposto da tolerância, presente no espírito deste festival, vai obviamente ao encontro da aceitação de opiniões diferentes, desde que devidamente comprovadas. Com isto, abre-se facilmente via aos consensos, e elimina-se definitivamente as irritantes clivagens opinativas, obstáculos frequentes à consagração dos diferentes eventos musicais no nosso país. Estas palavras servem de introdução à performance dos franceses IGORRR, estrelas da segunda noite e que fechavam naturalmente as atuações no palco Corpo, no grande terreiro de entrada do Castelo de Leiria. Musicalmente, os IGORRR valem o que são – um projeto interessante de fusão entre o electro-industrial extremo (a fazer lembrar aquele subgénero de metal digital acelerado que no final dos anos 90 assolou a Europa e ao qual os escribas de publicações respeitáveis como a Terrorizer apelidavam de Gabba), e puros momentos de inspiração gótica, nomeadamente pela voz da exuberante LAURE LE PRUNEREC e da impressionante figura teatral de LAURENT LUNOIR. A estreia dos IGORRR em Portugal, no Entremuralhas, motivava pelo menos bastante curiosidade, nalguns casos, e total ansiedade noutros, a julgar pela histeria colectiva que pareceu animar as hostes em frente ao palco.
Diz quem sabe que temas como "Scarlatti 2.0", retirado do álbum “Hallelujah” de 2012, assim como outros do ep “Maigre”, de 2014, a “Nostril” (de 2010), sem esquecer os grandes êxitos como "Pavor Nocturnus", "Excessive Funeral", "Infinite Loop", "Tendon" e "Tout Petit Moineau", ou o final com a fusão de "Half a Poney" e "Unpleadant Sonata" mostraram os IGORRR no seu melhor. Terá sido bastante lamentada a ausência de encore dos IGORRR, depois de um concerto marcado pela intensa interação de LAURE com o público das primeiras filas, mas GAUTIER SERRE e os seus esbirros não regressaram, de resto uma infeliz mas necessária constante nestas andanças do Entremuralhas, já que o tempo não perdoa e preside ao desfile dos acontecimentos, com mão de ferro.
Pessoalmente, junto da equipa do Café Europa, um momento muito interessante do festival, embora a banda nos pareça envolta nalgum hype mediático. E assim nascia um novo dia, o último do Entremuralhas 2015.

Para a derradeira jornada anunciavam-se para nós pelo menos três bons motivos de interesse – o regresso dos AND ALSO THE TREES, os dark-folkers alemães ART ABSCONs e mais uma vez em Portugal, os eslovenos LAIBACH, recém-chegados de duas datas na Coreia do Norte. Relativamente aos restantes elementos do cartaz de sábado 29, os seus nomes pouco nos diziam, como é óbvio, não obstante ainda acabámos agradavelmente surpreendidos. Como também já é hábito neste certame, as tendas de merchandising, concretamente as da Equilibrium Music de Lisboa, e a Bunker Store do Porto, continuaram este ano a ser motivo de alto interesse e provavelmente por causa delas, o staff do Café Europa acabou por perder os Ash Code e os A Dead Forest Index, sobretudo quando a conversa começa a virar para o Metal extremo e as memórias de Hellhammer, Bathory, Mercyful Fate, Venom e similares não param de afluir; relativamente aos AND ALSO THE TREES, nada há a referir em especial – o público mais idoso gostou de os rever e os mais novos receberam-nos com entusiasmo e respeito. Ficaram bem no Entremuralhas, que lhes conferiu uma certa aura de respeitabilidade por um grupo que se aguentou tantos anos sem vacilar e sem fazer desmesuradas concessões às exigências do marketing, que é como quem diz, dos trabalhadores do comércio. Se tivéssemos que fazer um paralelo com a edição passada do festival, talvez o efeito fosse quase semelhante ao conseguido pelos lendários The Legendary Pink Dots.
Restavam-nos três bandas, uma das quais por nós desconhecida e que teve honras de fechar o festival.

Relativamente aos dark-folkers germânicos ART ABSCONs, foi uma boa surpresa vê-los ao vivo; será quiçá em palco que a sua arte total e literalmente se revela. Canções misteriosas, compostas dentro de um género de folk neoclássico, cantadas por Grandmaster Abscon em alemão, e as quais receberam ovações entusiastas do público, com gente empoleirada nas ameias da torre de menagem do castelo, e uma vasta plateia no terreiro em frente ao palco Alma. A combinação da sonoridade trovadoresca das canções com alguns dos aspectos cénicos que caracterizam os ART ABSCONs, fizeram deste concerto um dos mais visuais e talvez o único que mais se enquadrou na tradição dark-folk a que o Entremuralhas, sendo um festival gótico, nos habituou.

A antecipação do concerto dos LAIBACH nem sequer se fez sentir muito; com a descida das hostes pelos caminhos que ligam o terreiro cimeiro ao principal, em baixo, onde está montado o palco Corpo, depressa se repetiram as cenas de animação e convívio que afinal de contas definem este festival. Conversas, reencontros, sandes, sopa e cervejas para todos, e no P.A., como Backdrop musical, os temas do disco electrónico-barroco-ambiental dos LAIBACH, “The Art of Fugue”, “Kunst der Fugue”, “A Arte da Fuga”, que muitos consideram ser meramente um disco de versões de J.S Bach. Alguns mais aventureiros, querendo encontrar um melhor spot para visionar o concerto, dispunham-se pelas encostas com árvores e arbustos que ladeiam o terreiro e o palco, como testemunhas emboscadas de um evento sem igual, alguns sentados na beira dum tronco cortado, outros nas saliências de partes de raízes de árvores, outros ainda procurando ingloriamente não escorregar sobre declives com ângulos de pouco mais de 90 graus, outros ainda tropeçando nas ditas raízes e estatelando-se na noite, na altura em que quem assistia das laterais cimeiras podia vislumbrar a progressiva afluência de gente para junto do palco, enquanto outros ainda se encontravam cativos das longas filas para as deliciosas sandes de lombo. Há alguém que se assusta e desequilibra, quase tombando sobre os que estavam sentados à frente, ao passar próximo desta equipa, no momento em que um de nós faz um movimento brusco com o braço – segundos depois é a namorada que escorrega e cai sobre a curta minissaia gótica. No mesmo segundo ecoa o hino da Eurovisão (e não o hino da Europa, como alguns mais jovens pensaram…), seguido de “Eurovision”, o ominoso tema de “Spectre”, último álbum dos LAIBACH – e de repente tudo que pudemos observar imediatamente antes, passa a fazer sentido, à luz das actualidades. Salve-se quem puder – “Europe is falling apart”.
Esta passagem dos LAIBACH pelo Entremuralhas, só por si equivale a uma chave de ouro, e não será apenas pela reinterpretação de clássicos como “Leben Heisst Leben” ou “Tanz Mit Laibach”, ou de “B Maschina” ou “Brat Moj” (este dos tempos primordiais do coletivo artístico oriundo da pequena cidade montanhesa de Trebovlje); com efeito, ao vivo os temas de “Spectre” ganham contornos mais definidos, mobilizando os nossos ouvidos e massa cinzenta para uma compreensão mais afinada, sendo disso bom exemplo o entusiasmo da turba ao acompanhar temas tão heterogéneos presentes em “Spectre”, como “The Whistleblowers”, “Bossanova”, “Love on the Beat” (original de Gainsbourg), mas também “Resistance is Futile”, o aterrador “No History” ou mesmo a fantástica cover de “See That My Grave Is Kept Clean”, velha gema do bluesman negro Blind Lemon Jefferson.
Mas os LAIBACH são um coletivo artístico cuja encarnação musical é essencialmente satírica e por isso a piada ditatorial de dividir o público em duas partes e pedir que respondam em uníssono aos oh-oh-oh e instruções pré-gravadas, pondo as centenas de pessoas a responder às ordens de uma máquina digital, é por assim dizer a cereja em cima do bolo do “tongue in cheek” totalitário. São líderes natos em quem não se pode confiar muito, na mesma medida em que também não o fazíamos com os Monty Python.
E porque já tínhamos posto de lado a hipótese de entrevistar os LAIBACH, já que a conversa planeada com PATRICK LEAGAS tinha redundado em frustração por falta de tempo do próprio, eis quando nos chega Júlio Rodrigo, nosso camarada do programa “concorrente” Arranca-Corações, com o scoop inesperado de ter registado uns minutos de conversa com um dos fundadores dos LAIBACH, o diplomático IVAN NOVAK, entrevista essa que num gesto de imensa generosidade e camaradagem, Júlio Rodrigo partilhou com o Café Europa e que poderão ouvir no podcast desta emissão. Na entrevista Júlio Rodrigo questiona IVAN NOVAK sobre temas atuais da vida dos LAIBACH, assim como sobre alguns aspectos para o futuro. O nosso “MUITO OBRIGADO” ao Júlio Rodrigo e ao programa Arranca Corações, e que este continue ainda por muitos mais anos.

Ainda emocionados por este arrasador terramoto musical, que até podia ter fechado a edição deste ano do Entremuralhas, constatámos que essas honras foram concedidas com justiça aos suecos AGENT SIDE GRINDER, um grupo dos arredores de Estocolmo que faz um interessante cruzamento de memórias do final dos anos 70 e início de 80 (Joy Division, Ultravox ainda com John Foxx, Magazine, ou até os melhores momentos dos Depeche Mode). Um encerramento de festividades adequado e que fechou elegantemente esta edição de 2015 do Festival Entremuralhas.
A programação de 2016 já está a ser preparada e resta-nos depositar a confiança de sempre no colectivo da Fade In, para que continue a alimentar esta ideia da melhor forma, continuando a garantir ao nosso país um dos seus melhores festivais de música a sério, e não para brincar. Até para o ano, no “mesmo campo de férias” !

domingo, 23 de agosto de 2015

Café Europa Radio Show #166 - Cafe Europa apresenta: Festival Entremuralhas 2015

01. PHANTOM VISION - "Rest in Pieces" (POR) (instinct - 2005)
02. TYING TIFFANY - "Wake Up" (ITA) (undercover - 2005)
03. TYING TIFFANY - "One Girl" (ITA) (drop - 2014)
04. LENE LOVICH - "What Will I Do Without You" (GBR) (flex - 1979)
05. LENE LOVICH - "It's You, Only You (Mein Schmerz)" (GBR) (no man’s land - 1982)
06. JORDAN REYNE - "Birds Of Prey" (NZL) (birds of prey - 1997)
07. JORDAN REYNE - "The Narcissus" (NZL) (the annihilation sequence - 2013)
08. KELUAR - "Detritus" (GER) (ennoea e.p. 12" - 2013)
09. 6 COMM - "Calling" (GBR) (…. recoil – compl. - 2001)
10. 6 COMM - "Content With Blood" (GBR) (…. recoil – compl. - 2001)
11. MOTORAMA - "Empty Bed" (RUS) (empty bed - 2011)
12. MOTORAMA - "Ship" (RUS) (alps - 2010)
13. [:SITD:] - "Hurt" (GER) (stronghold - 2003)
14. IGORRR - "Grosse Barbe" (FRA) (hallelujah - 2012)
15. IGORRR - "Tendon" (FRA) (nostril - 2010)
16. A DEAD FOREST INDEX - "Distance" (NZL) (antique - e.p. - 2010)
17. A DEAD FOREST INDEX - "Cast Of Lines" (NZL) (cast of lines - e.p. - 2014)
18. ASH CODE - "I Can't Escape Myself (The Sound cover)" (ITA) (empty room - e.p. - 2014)
19. ART ABSCONS - "Liliensonne" (GER) (der verborgene gott - 2010)
20. ART ABSCONS - "Parzival" (GER) (les sentiers éternels - 2012)
21. ART ABSCONS - "Gently Does It (by Enharmonic)" (GER) (travelling with ukulele - 2014)
22. AND ALSO THE TREES - "Gone... Like The Swallows" (GBR) (virus meadow - 1986)
23. AND ALSO THE TREES - "Candace" (GBR) (when the rains come - 2009)
24. LAIBACH - "Warszawskie Dzieci" (SLO) (1 VIII 1944 warszawa – e.p. - 2014)
25. LAIBACH - "Under The Iron Sky" (SLO) (live at tate modern - monumental retro-avant-garde - 2012)
26. LAIBACH - "The Whistleblowers" (SLO) (spectre - 2014)
27. AGENT SIDE GRINDER - "Die To Live" (SWE) (irish recording tape - 2009)

27 AGOSTO:
PHANTOM VISION – 22h00 – palco corpo
A 27 de agosto, primeira noite do festival, decorre inteiramente no palco corpo, no recinto da entrada do castelo e teremos a abrir a representação nacional deste ano a cargo dos lisboetas PHANTOM VISION.
Formados em 2000 são, irrefutavelmente, a mais importante banda “batcave” da cena nacional, no activo. A sua música, resultante de assumidas influências de post-punk, goth-rock, psychobilly, darkwave e do underground dos anos 80, tem tanto de sorumbática como de empolgante, prestando-se, quase sempre, a estabelecer uma fórmula que a torna dançável. Pedro Morcego, figura iconográfica da cena alternativa nacional, é a voz que nos guia por entre catacumbas sombrias, recantos húmidos, teias de aranha gigantes, strobes incandescentes, demónios e caveiras, ossos e carne putrefacta… O timbre que nos revela estes devolutos cenários de fantasias lúgubres, tem tanto de grave como de aveludado, e é uma das imagens sonoras de marca dos PHANTOM VISION. A banda completa-se com André Joaquim (músico de inúmeras bandas, entre as quais, Dr. Frankenstein e Capitão Fantasma) e James Dead (mentor do projecto Devil’s Lipstick) aos quais se junta, ao vivo, a conceituada dançarina de burlesco e danças orientais, Ágata. O universo idílico e poético que reveste a fantasiosa casta estética dos PHANTOM VISION materializou-se em quatro álbuns. O primeiro, “Nocturnal Frequencies”, foi editado em 2001 na etiqueta britânica Nightbreed Recordings. Seguiram-se em 2003 “Traces Of Solitude”, “Calling The Fiends”, no ano seguinte e, em 2005, “Instinct”, todos eles na editora germânica COP International. Ao vivo, a banda já dividiu palcos com nomes tão importantes como Uk Decay, Soror Dolorosa, Covenant, Ataraxia, Clan Of Xymox ou The Mission.

 27 AGOSTO:
TYING TIFFANY – 23h00 – palco corpo
Depois dos nacionais PHANTOM VISION sobe ao palco corpo a italiana TYING TIFFANY que estreia-se em Portugal, dez anos depois de ter editado “Undercover”  e que reflectia a sua paixão pela música industrial, punk e darkwave. Uma década e quatro álbuns depois (“Brain For Breakfast” de 2007; “People’s Temple” de 2010; “Dark Day, White Nights” de 2012; e “Drop” o seu último trabalho de 2014) a “menina rebelde” da cena transalpina apurou a estética e tornou-se numa respeitada e refinada senhora da música electrónica. Contudo, esta compositora-cantora-performer, nunca descurou o formato de canção, ao mesmo tempo que não colocou de lado a necessidade de procurar sempre um caminho estético não-conformista. O resultado é maioritariamente sofisticado mas com presença de instrumentos orgânicos como a bateria, a guitarra eléctrica ou o baixo. Talvez tenha sido o seu passado como designer, fotógrafa ou actriz, a delinear os contornos de uma personagem multidisciplinar, que tanto aborda o palco como uma rufia provocadora, como vestindo a pele da mais elegante das divas. TYING TIFFANY tem um percurso invejável, embora se tenha mantido na sombra dos holofotes do mainstream. Ainda assim há alguns episódios surpreendentes: dividiu palcos com nomes como Buzzcocks, Eels, The Rapture, dEUS e Iggy Pop. Andou em digressão com Alec “Atari Teenage Riot” Empire e colaborou com Nic Endo (também dos ATR) ou com o mestre Pete Namlook. As suas canções foram alvo de remisturas várias, uma das quais pelos enormes Revolting Cocks – a super banda de Al Jourgensen (Ministry), Luc Van Acker e Richard 23 (Front 242). Em 2010 viu o seu tema “Storycide” ser seleccionado para rodar num dos episódios do CSI: Las Vegas, e dois anos mais tarde, “Drownin’” foi incluído na banda sonora do jogo FIFA 12 ao lado dos The Strokes, Digitalism ou TV On The Radio. No seu currículo fazem parte ainda passagens por alguns dos mais carismáticos festivais do mundo como o Wave Gotik Treffen de Leipzig, no velho continente, ou o SXSW em Austin, Texas, em terras de Tio Sam. TYING TIFFANY é uma figura que nos empolga. Temos a certeza que ela e companheiros não deixarão créditos por mãos alheias na sua aguardada passagem pelo ENTREMURALHAS 2015.

27 AGOSTO:
LENE LOVICH BAND – 00h00 – palco corpo
A fechar a primeira noite o regresso a Portugal de LENE LOVICH. Um ícone incontornável da new-wave dos anos 80 e uma figura de imagem e obra mundialmente reconhecidas. Nascida em Detroit, nos Estados Unidos, Lili Marlene Premilovich (de seu verdadeiro nome) mudou-se ainda jovem para Londres, fazendo de Inglaterra a sua pátria adoptada. Autora de um número impressionante de êxitos, alguns dos quais, como por exemplo, “"What Will I Do Without You" ou “I"t's You, Only You”, LENE LOVICH construiu um universo sonoro peculiar, fazendo uma miscigenação pop polvilhada de infuências derivadas do rock, do raggae, do ska e da synth-pop. Mas é a sua voz particularmente característica, onde se reconhecem claros trejeitos teatrais, que lhe conferem uma identidade única. De resto, não foi por acaso que outros grandes nomes mundiais quiseram, ao longo dos anos, a colaboração desta senhora de visual extravagante e exótico, casos de Tom Verlaine, Thomas Dolby, Nina Hagen, The Residents, Peter Hammil, Hawkwind ou Dresden Dolls, só para citar alguns. No ENTREMURALHAS 2015, em pleno Castelo de Leiria, LENE LOVICH será acompanhada pela sua BAND constituída por Jude Rawlins, na guitarra, Kirsten Morrison nas teclas, Valkyrie no baixo e pelo baterista Morgan King, num concerto que, certamente, nos vai pôr todos a dançar ao som de emblemáticos temas. Será, sem qualquer dúvida, histórico...

28 AGOSTO:
JORDAN REYNE – 18h00 – igreja da pena
No segundo dia do Entremuralhas já com os três em funcionamento, cabe a JORDAN REYNE é uma alma nómada, com raízes na Nova Zelândia e com a voz de mil almas dentro, estrear o palco da igreja da pena nesta edição. A sua música é, maioritariamente, uma mistura de vocalizações pagãs e celtas, erigidas com guitarra à tira-colo. Mas, por vezes, também há margem para os ritmos maquinais da “revolução industrial” que inspira algumas das suas letras, num imaginário onde nem sequer faltam as locomotivas a vapor, ornamentos metafóricos que lhe têm valido também o título de “steampunker dos antípodas”. Três vezes nomeada para os “New Zealand Music Awards”, JORDAN REYNE viu alguns dos seus discos receberem o apoio da Creative New Zealand – o equivalente nacional (se ainda houvesse…) ao Ministério da Cultura. Para além da sua já longa carreira, onde podemos descortinar seis álbuns (dois dos quais sob o heterónimo de Dr. Kevorkian & The Suicide Machine), sendo o seu primeiro álbum de 1997 “Birds of Prey”. JORDAN REYNE é ainda membro ao vivo dos The Eden House, a super banda onde pontifica, por exemplo, Tony Pettit. Aliás, o baixista dos Fields Of The Nephilim é um dos convidados de “The Annihilation Sequence”, o mais recente longa-duração de JORDAN REYNE que, curiosamente, foi misturado e masterizado por Stephen Carey. JORDAN REYNE, que também deu voz à saga “Senhor dos Anéis”, é considerada uma das mais abençoadas, talentosas e inteligentes compositoras/performers da Nova Zelândia e a crítica não lhe tem poupado elogios. A BBC, por exemplo, descreve-a como “esplêndida e colossal”, e o lendário jornalista e escritor Mick Mercer afirma que “o seu impecável timbre tem um quê de agradável malícia”. Até os frios eslovenos Laibach se renderam aos seus encantos, tendo convidado esta senhora a abrir os seus concertos na Polónia. A vinda desta “feiticeira” à Igreja da Pena do Castelo de Leiria será, por tudo isto, absolutamente imperdível.

28 AGOSTO:
KELUAR – 19h00 – igreja da pena
O segundo projeto a subir ao belíssimo palco da igreja da pena são os alemães KELUAR. A nova aventura sonora de Alison Lewis (também conhecida por Zoè Zanias), a londrina que dava voz aos extintos Linea Aspera (um dos grandes nomes da cena synth-minimal-wave revivalista europeia) e de Jonas Förster (também conhecido como Sid Lamar), multifacetado músico e produtor, e membro proeminente dos germânicos Schwefelgelb. O background da dupla envolvida em KELUAR tende-nos, facilmente, a estabelecer comparações com os trabalhos desenvolvidos anteriormente, mas desengane-se quem pense encontrar aqui qualquer tipo de continuidade. KELUAR representa uma ruptura. Os resquícios de Linea Aspera não passam disso mesmo… resquícios. A curva deu-se em direcção ao ocaso, por isso, no universo dos KELUAR a luz é muito pouca. Os ritmos são minimalistas e as melodias frias e distantes. A voz é atirada ao vento, como uma brisa que beija ao de leve, aparentemente desinteressada mas, paradoxalmente, marcante. Aqui e ali lembram-nos a de Zola Jesus, mas a voz de Zoè, apesar da sua aura gélida, consegue (imagine-se!) ser mais quente que a de Nika Danilova. De resto, no território desbravado pelos KELUAR encontramos também uma área demarcada reservada a um certo conceito exploratório, como se a banda procurasse, dentro das claras referências que os circundam, uma escapatória em direcção a uma sonoridade cada vez mais personalizada e única. O espectáculo nas ruínas da Igreja da Pena terá uma áurea que em mais lado nenhum consegue ter.


28 AGOSTO:
6 COMM – 21h00 – palco alma
Momento alto do EM2015 será, sem duvida, o concerto que os históricos 6 COMM darão no Castelo de Leiria, provavelmente, o último concerto da sua longa carreira de quase três décadas, uma vez que este foi o ano anunciado para pôr um ponto final na banda dos “mil” disfarces: Patrick Leagas, também conhecido por Patrick O-Kill, fundou os 6 COMM em 1986 depois de ter deixado os Death In June de quem foi percursionista, vocalista e membro fundador. Aliás, Patrick Leagas é a voz de algumas das mais emblemáticas canções do controverso colectivo que dividia com Tony Wakeford e Douglas P. “Torture Garden”, “Doubt To Nothing”, “Foretold”, “Caroussel”, “Born Again”, “State Laughter” ou “Calling” foram escritas nos Death In June, mas, ao longo dos anos, foram, por direito próprio, alvo de inúmeras versões e re-arranjos nos 6 COMM. E, para nosso gáudio, Leagas promete interpretar algumas delas no aguardado concerto do ENTREMURALHAS 2015. Os 6 COMM têm forte imagética militarista e a sua música pode, por vezes, ser esmagadoramente claustrofóbica, no entanto, é nos raios de luz que entram pelas friestas sonoras das suas composições que se distingue a mais fluída da suas vertentes. E aí, encontramos uma obra próxima da pop com texturas electrónicas e nuances ritualistas, elementos que advêm, por certo, das fortes influências mitológicas e mágicas que sempre timbraram Patrick Leagas. Por tudo isto, e pelo contexto específico do seu enquadramento, o concerto dos 6 COMM será, sem dúvida, mais um dos momentos marcantes da história deste festival.

28 AGOSTO:
MOTORAMA – 22h30 – palco alma
A dividir o palco alma nesta segunda noite estão os russos MOTORAMA que “voam directamente” da cidade portuária de Rostov-on-Don para o Castelo de Leiria. Na bagagem trazem repertório suficiente para brindar todos os presentes com os mais refinados temas dos seus três álbuns: “Alps” de 2010, “Calander” de 2012 e o recente “Poverty”. O quinteto dá corpo a um dos mais consolidados grupos post-punk da actualidade. Mas a sua música, onde – é verdade – se nota uma forte herança do legado Joy Division e The Sound, não se confina às cores monocromáticas características do género principal que os caracteriza. Aqui e ali, observamos pinceladas de outras cores, numa paleta que origina incursões (ténues mas notadas) ao shoegazing, à new wave e ao indie rock mais sorumbático. Talvez seja a voz de Vladislav Parshin, claramente “assombrada” pelo timbre de Ian Curtis (e, aqui e ali, até pelo de Stuart Staples do Tindersticks), que seja a responsável maior pela aura nostálgica que paira sobre a sonoridade da banda. Mesmo quando os dedilhados de guitarra nos remetem para outras temperaturas que não estamos habituados a conotar com a grande Rússia, há sempre a um baixo monocórdico e uma bateria de trejeitos graves que fazem com que nunca esqueçamos que a fronteira estética da banda está, apesar de tudo, muito bem confinada. Curiosamente, é da reputada BBC uma das frases que melhor define os MOTORAMA: “Eis uma banda sediada junto à fronteira da Ucrânia que se assemelha a um bando de nova-iorquinos a simular o som de Manchester nos anos 80. Tudo isto seria absurdo se o resultado não soasse tão sublime!”. E será isso então, que poderemos confirmar, ao vivo, em Agosto, no Palco Alma do Entremuralhas – aquele local especial, mais perto do céu…


28 AGOSTO:
[:SITD:] – 00h00 – palco corpo
Os germânicos [:SITD:] são uma das mais bem sucedidas e aclamadas bandas electro industriais da Europa. A sua sonoridade distingue-se pelas melodias e pelas nuances contemplativas das ambiencias que por vezes as acompanham. Os ritmos, tanto podem ser em mid-tempo como em velocidade acelerada, tonificados, normalmente, por sequenciadores circulares que nos fazem bater o pé e dançar. As vocalizações tanto se podem apresentar limpas como saturadas em efeitos, tendo sempre um papel fundamental na identidade do grupo. Os [:SITD:] – iniciais de Shadows In The Dark (que é uma uma expressão metafórica relativa à música e ao conteúdo lírico da própria banda) – formaram-se em 1996 e são constituídos por Carsten Jacek, na voz, Thomas Lesczenski na programação e voz secundária e o teclista Francesco D’Angelo teclas. Para além do seu numeroso espólio editorial, onde pontificam discos como “Stronghold” em 2003; “ICON:KORU” em 2011, e “Dunkelziffer” em 2014, os [:SITD:] são também conhecidos pela quantidade de remixes que já fizeram e de que são alvo. Rezam as crónicas que os seus concertos ao vivo são de grande impacto. Certo, certo é que também vão inscrever o seu nome no ENTREMURALHAS 2015 onde assumiram o compromisso de colocar todos os presentes a dançar, como aliás, manda a tradição do Palco Corpo.

28 AGOSTO:
IGORRR – 01h30 – palco corpo
O ENTREMURALHAS nunca teve, em seis edições, uma banda tão extrema como os IGORRR, que fecham o segundo dia no palco corpo.  Extrema e inventiva, acrescente-se! A estes dois adjectivos podemos, tranquilamente, juntar mais três: genial, vanguardista e portentosa. IGORRR é obra do gaulês Gautier Serre, um exímio compositor e manipulador de sons, ao qual se juntam ao vivo a vocalista Laure Le Prunerec (que com Gautier divide os não menos criativos Corpo-Mente) e o vocalista Laurent Lunoir. 2005 foi o ano de ignição desta extravagante sonoridade de ópera, música barroca, death-metal, breakcore, drum’n’bass e folclore, cujo resultado culmina numa abrasiva eloquência de contornos únicos que não deixa ninguém indiferente. Em 2010, quando IGORRR lançou “Nostril” – então o seu terceiro álbum – a aclamação da crítica foi unânime. A importante revista Les Inrockuptibles, por exemplo, colocou o disco na lista de álbuns mais importantes da cena metal ou electro, a par de bandas como Nine Inch Nails, Marilyn Manson ou Ministry. Já a Side-Line destacou a sua frescura e distância de tudo o resto editado até então. 2012 foi o ano em que IGORRR foi recrutado pelos sempre atentos e nada estanques Morbid Angel para assumir uma da remisturas do seu polémico disco “Illud Divinum Insanus”, e foi também o ano de “Hallelujah”, um quatro álbum que consolidou IGORRR como dono de um território sonoro absolutamente ímpar! A minúcia com que Gautier Serre tece a filigrana teia de sons de IGORRR faz a obra de Richard D. James parecer uma coisa de aluno e não de mestre. A prestação ao vivo de IGORRR no Entremuralhas 2015 será, certamente para todos, uma experiência sonora de contornos inolvidáveis.

29 AGOSTO:
A DEAD FOREST INDEX – 18h00 – igreja da pena
Os A DEAD FOREST INDEX, os segundo representantes da NZ nesta edição do EM, iniciam os concertos do último dia. Os A DEAD FOREST INDEX  são Formados pelos irmãos Adam Sherry, na voz e guitarra e Sam Sherry, nas teclas e bateria, aos quais se juntou, no final de 2014, Gemma Thompson, nada mais nada menos do que a guitarrista das muito aclamadas Savages. Aliás a sua relação com a banda já se materializara com a extensa digressão conjunta no ano passado e na editora comum, a Pop Noire. Antes da incursão europeia, já os A DEAD FOREST INDEX tinham aberto o concerto dos lendários Killing Joke, em Melbourne, na Austrália. A primeira coisa que nos prende aos A DEAD FOREST INDEX é a voz. Uma voz lindíssima que tanto nos remete para a profundidade de uma Nico como para o universo dramático de Billy Mackenzie dos The Associates. Mas não é só o timbre que nos fascina. As canções e a forma como são construídas e, posteriormente, desconstruídas, são uma das “imagens de marca” da banda. A música destes neozelandeses é polvilhada apenas pelo essencial. Nada aqui é supérfluo. Talvez por isso soe tão minimalista e despida, contrastando descaradamente com a enormíssima alma que a veste. “Cast Of Lines” ou “"Distance", são uma pequena amostra de que farão as ruínas da Igreja da Pena transpirar de sentidos e embalar-nos-ão na luz do crepúsculo que não tardará em chegar…

29 AGOSTO:
ASH CODE – 19h00 – igreja da pena
Os italianos ASH CODE são uma das grandes revelações da cena coldwave/darkwave-postpunk europeia. Formada em Nápoles, em Janeiro de 2014, a banda precisou apenas de alguns meses para compor os temas de “Oblivion”, álbum lançado logo a seguir ao primeiro verão da sua existência. E tem sido com esse disco que os ASH CODE têm conquistado rapidamente fãs e crítica especializada, que não lhes poupa os mais rasgados elogios. A presença dos ASH CODE no ENTREMURALHAS 2015 fará as delícias dos apreciadores de bandas como She Past Away, The Soft Moon ou She Wants Revenge, ou ainda os mais saudosos poderão fechar bem os olhos e lembrar-se de
Adrian Borland, se nos presentearem com a versão de "I Can't Escape Myself”.


29 AGOSTO:
ART ABSCONS – 21h00 – palco almaART ABSCONS é um misterioso projecto alemão liderado por uma pessoa cuja verdadeira identidade se desconhece. Este “personagem”, que se auto-intitula de Grandmaster Abscon, apresenta-se sempre por detrás de uma máscara que, para muitos, causa repulsa e medo. Mas esses sentimentos são claramente antagónicos à música de ART ABSCONS: bela, doce, atraente, mas com um “quê” de mistério. Em palco, esse desconhecido indivíduo é acompanhado por mais três mascarados que escondem as suas verdadeiras faces. Está visto, pois, que existe aqui, claramente, um conceito que, em palco, pode até ganhar contornos de melodramatismo teatral. De resto, nunca se poderia esperar “normalidade” artística a quem se diz influenciado por Death In June, por Lee Hazlewood, pela música Ye-Ye francesa dos anos 60 ou por Picasso. Confusos? Não estejam. A música de ART ABSCONS é uma espécie de neofolk cénico, com arranjos audaciosos, arestas limadas e com a inclusão de inesperados elementos de proveniências tão improváveis como a country. A voz, sempre numa toada entre o spoken-word e o cantado, é suave e discreta, mas tem uma presença que transmite a força das palavras, mesmo quando a língua em que são proferidas nos impede de as entendermos (ainda assim, é impossível não as sentirmos). A riqueza de ideias e as soluções sonoras apelativas e ao mesmo tempo “estranhas”, proliferam no universo de ART ABCONS, tornando-o num território. Será, certamente, uma das grandes surpresas para muitos dos presentes, para nós aqui no CE é um dos concertos mais aguardados.

29 AGOSTO:
AND ALSO THE TREES – 22h30 – palco almaOs ingleses AND ALSO THE TREES encerram o palco alma desta sexta edição do EM.  Formados em 1979 e são, provavelmente, os últimos sobreviventes e os legítimos herdeiros do espírito neo-romântico da geração pós-punk. A sua música melancólica, profunda e aveludada, é tecida a partir do dedilhado de guitarra único e característico de Justin Jones, ao mesmo tempo que é beijada pela voz incomparável e com alma dentro de seu irmão Simon Huw Jones. De resto, a sonoridade sorumbática do grupo, cujo primeiro álbum foi produzido em 1983 por Laurence Tolhurst (à data, baterista dos The Cure) completa-se com a intervenção de Steven Burrows, Paul Hill, Ian Jenkins e Emer Brizzolara. Curiosamente, a relação com os The Cure não foi episódica. Robert Smith, fã confesso dos AND ALSO THE TREES, tem seguido a carreira e obra da banda, materializada em dezena e meia de álbuns. Em dezembro de 2014, os The Cure voltaram a convidar os AND ALSO THE TREES para abrir mais um dos seus espectáculos, 30 anos depois de o terem feito pela primeira vez. O universo do grupo da pequena localidade de Worcestershire, inspirado nas paisagens e no ambiente rural que os circunda, transforma-se num imaginário lírico rico e elaborado, dando origem a um vasto espólio de canções que tanto apraz os fãs de Joy Division, Bauhaus e Chameleons, como delicia os de Crime And The City Solution, Tindersticks ou Nick Cave. Os AND ALSO THE TREES regressam de novo a Leiria, cinco anos depois de o terem feito, em exclusivo e pela primeira no nosso país (então num dos episódios do FADEINFESTIVAL 2010), mas desta vez para tocarem mais perto do céu… 

29 AGOSTO:
LAIBACH – 00h00 – palco corpo
Dez anos depois a FADE IN volta a fazer a vontade a muitos dos seus amigos e é com desmesurado orgulho e honra, que agenda para esta edição do EM o regresso a Leiria dos iconográficos, provocadores e inimitáveis LAIBACH – uma semana depois de fazerem história com os dois concertos que têm agendados para a Coreia do Norte.
Sintetizar em tão poucas linhas a obra e a importância desta banda é quase um crime de lesa-estado. E “Estado” é uma palavra intrínseca aos próprios LAIBACH. Para além de terem tido um papel de enorme relevância na independência da Eslovénia (o grupo, sedeado na cidade de Trbovlje, é mesmo um simbolo nacional) os LAIBACH são ainda membros fundadores da NSK – Neue Slowenische Kunst (Nova Arte Eslovena), um controverso colectivo político e artístico que, entre outros, criou um Estado virtual, sem território físico, mas com cidadãos titulares de passaportes e com consulados em várias cidades da Europa. A estética musical dos LAIBACH tem vindo a sofrer alterações de década para década. Os seus 35 anos de carreira começaram na música industrial no seu estado mais puro e virginal. Os anos 80 foram, pois, marcados pelos ritmos e percurssões maquinais e fabris, vocalizações graves e coros wagnerianos, onde nem sequer faltaram versões dos Rolling Stones, Queen e Opus (com os LAIBACH a interpretarem “Life Is Life” de uma forma subversiva, transformando aquele êxito numa marcha militarista triunfal) e o álbum “Let It Be”, dos Beatles, a ser versionado na sua totalidade. Nos anos 90 a banda experimentou as electrónicas e, posteriormente, a fusão destas com as guitarras de riffs pesados, num álbum intitulado “Jesus Christ Superstar”, que acabou por influenciar toda uma nova corrente de bandas e de miscigenações de estilos. “WAT” de 2003, “Volk” de 2006 e “Spectre” de 2014 são já álbuns de pura sofisticação, com sonoplastias técnicas do mais fino recorte, temas fenomenalmente escritos e produzidos, de crítica política/social afiada e inteligente, mordaz e incisiva, que nos continuam a mostrar uma banda com um vastíssimo manancial e arrojo estético, materializado com todo o seu esplendor nas suas estupendas prestações ao vivo. A propósito do concerto dos LAIBACH na Tate Modern em Londres – a galeria de arte moderna mais visitada do mundo – escrevia o jornal The Guardian o seguinte: “Laibach at their best blur art and confrontation”. Portanto, a arte e o confronto como um todo indivisível. Não há outra banda assim…

29 AGOSTO:
AGENT SIDE GRINDER – 01h30 – palco corpoOs AGENT SIDE GRINDER chegam-nos de Estocolmo, Suécia para encerrar o EM2015. Juntos desde há dez anos, o quinteto, dá corpo aquela que é uma das mais empolgante e apelativa banda de post-punk de reminiscências industriais da actualidade. Os espólio criativo dos AGENT SIDE GRINDER começou a ser erigido com o álbum homónimo editado em 2008, ao qual se seguiu, em 2009, “Irish Recording Tape”, dois discos que traçavam, desde logo, a personalizada caminhada do grupo, mas onde pairava, ainda, uma certa aura experimental. Estas duas obras iniciais foram suficientes para que o colectivo ganhasse uma reputação crescente por toda a Europa. Mas foi com “Hardware”, o disco de 2013, que a banda revelou uma capacidade expansionista, quer em termos estéticos (mais apurados e estilizados) quer em termos geográficos (a aclamação extrapolou a do velho continente) arrebatando o título de “álbum do mês” na Vice Magazine e aparecendo nas listagens de melhores discos do ano em publicações como a Time Out Paris – vindo mesmo a ganhar o “Manifest Award” (os Grammy indie suecos) de melhor álbum “synth” de 2013. Os AGENT SIDE GRINDER já “andaram na estrada” com nomes como Cold Cave ou Suicide. Ao vivo, a excelência da banda reforça-se e cresce substancialmente. A presença de Kristoffer Grip em palco, com uma postura verdadeiramente carismática, não deixa absolutamente ninguém indiferente. 2015 verá a luz de “Alkimia”, o novo álbum da banda e também, finalmente, a sua estreia ao vivo no nosso país.