quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Cafe Europa apresenta : CURRENT 93 “I Am The Last Of All The Field That Feel”, Coptic Cat, 2014

Nem todos os álbuns aos quais o Café Europa dá destaque têm a mesma carga sentimental de proximidade, de afectos alimentados há longas datas, nem terão necessariamente de ser alvo de uma cumplicidade militante, resultado de trinta ou quarenta anos de intensas paixões musicais. Se há dever que um programa como o Café Europa procura sempre honrar é o de apresentar novidades ou lançamentos importantes dentro de uma área musical, definida apenas pela sua qualidade inegável e pela sua ausência das grandes antenas nacionais e até internacionais, que há muito deixaram de ter papel relevante na apresentação da arte pela arte. À parte as estações locais ou académicas, que me lembre, só ouvi uma banda como os CURRENT 93 uma só vez, num dos programas da Antena 1 em que Ricardo Saló e Aníbal Cabrita convidavam estrelas do jornalismo musical nacional para fazer balanços anuais, e nesse programa a figura tinha Somsen como apelido.

Para os que prenunciavam o fim de uma certa elite de bandas e projectos nominais que desde o final da década de 80 se afirmaram como médium de vários géneros marginais, os anos da segunda década do século XXI devem estar a ser verdadeiramente enervantes uma vez que, não só esses nomes se mantêm estáveis e criativos, como também se multiplicam em inúmeras colaborações de impacto colateral proporcional, mas aguentando com notável dignidade as mudanças dos tempos e, sobretudo, das vontades.
Se calhar, não serei eu – somente eu – o elemento colaborador do Café Europa indicado para tecer algumas palavras emocionadas de apreço pelo novo álbum de David Tibet e dos CURRENT 93 – não quero ser mal interpretado: entre vinil e formato c devo ter uma trintena de obras dos CURRENT 93 em minha casa, portanto se não sou fã, para lá caminho. Aliás, já presenciei o grupo de David Tibet ao vivo pelo menos duas vezes, e há quase 30 anos tive um encontro inesperado com o próprio nas alamedas dos Jardins das Tulherias em Paris, ainda antes de saber bem quem ele era, tendo-o confundido com um missionário-pedinte de uma seita qualquer a distribuir panfletos em pleno coração parisiense.
Escusado será dizer que o autor de “Dogs Blood Rising” levou a mal e quase se gerava ali um pugilato entre um português com uma t-shirt de Motorhead e um malaio britânico de casaco existencialista e lunetas redondas fumadas. Com estas razões apontadas, estou em crer que tanto o Nuno Silva como o Ângelo Fernandes me vão perdoar o tom subjetivo com o qual vou abordar o álbum destaque desta semana – porque não vejo outra forma de o fazer.
David Michael Bunting, vulgo Tibet, e o seu grupo de amigos sempre móbil ao sol do meio-dia têm um novo disco de título “I Am The Last Of All The Field That Feel”. Devo confessar que os últimos discos que deles adquiri, em vinil, foram os duplos álbuns “Black Ships Ate The Sky” e “Aleph At The Hallucinatory Mountain”, respetivamente de 2006 e 2008, com a edição pelo meio do mini LP “Birth Canal Blues”; ao lado passaram-me por completo os álbuns “Baalstorm Sing Omega” e, ainda mais, “Honeysuckle Aeons”. Quer isto dizer que para já tenho como referência um intenso período de criação de David Tibet que marcava o seu regresso após discos tão importantes como “Sleep Has His House”, “Purtle”, “Bright Yellow Moon” ou “Hypnagogue”, apenas para citar os mais memoráveis já que os CURRENT 93 mantêm uma linha de edição quase constante, sendo pois muito difícil ser assertivo em matéria de edições consideradas basilares dentro dos originais.
Remontando à minha referência mais “recente” para “Aleph At Hallucinatory Mountain”, esse trabalho de grande porte tinha-me deixado um desconforto auditivo em matéria de composição, embora naturalmente com momentos de eleição. Uma coisa é certa – Tibet sabe bem quem há de convidar para figurar nos seus discos. E Andrew Liles, é um deles, o mestre saxofonista John Zorn é outro, assim como o lendário guitarrista Tony McPhee dos não menos históricos Groundhogs, ou ainda Antony Hegarty e Nick Cave, que têm episódicas mas decisivas colaborações. Convidados visionários são uma almofada de qualidade que impedem ao homem do leme a queda na sensaboria e, ainda mais, no perigo da repetição.
I Am The Last Of All The Field That Feel” é um trabalho que manifestamente foge a estes perigos, que estiveram várias vezes patentes nos discos que se seguem a “Bright Yellow Moon”, de 2001, que é talvez o derradeiro trabalho dos CURRENT 93 com as marcas com as quais até então construíram um império musical, durante dezoito anos a fio, quase sempre com vários álbuns por ano. “I Am The Last Of All The Field That Feel” sendo um álbum que veicula cada vez mais a sabedoria profunda de Tibet no misticismo cristão arcaico, teria de ser rico e profuso em ideias e execução e ao cabo dos primeiros temas, essa conclusão é inevitável.
Se tivéssemos que atribuir adjetivos e cumprimentos, fixar-nos-íamos numa atitude criativa de contornos jazzísticos e góticos, contudo envoltos numa ginástica progressiva que denota e melhor traduz os gostos do coletivo – Tibet nunca escondeu o seu amor pelo rock progressivo britânico e alemão, nomeadamente por bandas como os Van Der Graaf Generator, Hawkwind, Amon Duul I e II ou outros mais obscuros mas não menos excelentes, como Ramses e Sand. E essa vibe flutuante entre o jazz, o prog, o gótico e o space-cosmic estão ostensivamente nos temas de abertura, “The Invisible Church”, “Those Flowers Grew” e “Kings and Things” (este último de uma beleza marcante, a fazer lembrar os discos românticos de C93 na segunda metade dos anos 90).
Ao acompanharmos com atenção pelo libreto apercebemo-nos de que não há separação temática dos poemas, jorrando este como um fluxo contínuo de registos que aparentam ter sido redigidos em estado de quase êxtase. Aliás, como afirma o próprio Tibet várias vezes, a verdade é só uma, alusão blavatskyana que remete para a Verdade como a única religião tangível – Tibet escreve cada vez melhor Poesia e isso está patente neste álbum – maravilhosas palavras de senda e reencontro com o divino e com o apocalíptico também, reencontro com almas amadas, tal como acontece com o quarto tema “With the Dromedaries”.
Um reencontro com velhos amigos mortos entre os quais Jhonn Balance, numa espécie de elegia saudosa, apenas comparável com as palavras que Homero escreveu para Aquiles, lamentando-se perante o corpo morto de Heitor, só que num plano etéreo, em que as maravilhosas ideias criadas pelos idos se espelham de alguma forma nesse paraíso de memórias que perduram na eternidade. Pouco será dizer que é dos melhores momentos “Tibetanos” dos últimos vinte anos, tendo como ponto de referência o álbum de 94, “Of Ruine Or Some Blazing Starre”. Mas, não nos dando descanso à alma, o tema seguinte parece ser a continuação – “The Heart Full Of Eyes”, tem muito do som kraut de 71, dos Amon Duul II, dos Popol Vuh (especialmente a guitarra e o piano, e a base rítmica de feições orientais), tratado com as condições atuais do som digital que construem uma dança em círculo tridimensional, poema em movimento crescente, ascendente, expulsão terminal de demónios antigos, maravilhoso exorcismo de intensos por-de-sois laranja escuro que só ele é capaz de ver, a terminar com suave embalo de flautas dignas da Incredible String Band. 
A voz de Antony há muito que se tornou para mim um desgosto – passados os primeiros encantos e deslumbramentos do final da década de 90 e dos anos iniciais de 2000, os maneirismos vocais vistosos do autor de “Cripple and the Starfish” pareceram integrados numa espécie de mainstream paralelo em que os dotes artísticos parecem reduzir-se a um ritual habitual de truques, com uma hipertrofia temática de, como escreveu Hyaena Reich, “canções de suicídio para cortar os pulsos com faquinhas de manteiga”. Antony, é certo e sabido, é um protegé de Tibet e estará sempre à vontade com o seu talento aliado ao visionarismo do seu patrono. E em “Mourned Winter Then” não se faz excepção – a interpretação do gigante anjo azul soa sólida e intimista, num poema que fala da Deusa Lua e do seu poder, da sua magia feita da lógica das estrelas e de como somos apenas ecos da sua existência divina e natural, através de tudo o que ela faz refletir nos nossos actos. Para mim ainda não será uma reconciliação com a voz de Antony mas decerto que me junto à assembleia concordante com o elevado momento musical aqui desenvolvido, que é no mínimo brilhante, apenas ultrapassado pelo grau do poema que é mais uma vez dos melhores escritos de sempre de Tibet.
As coisas voltam de novo a tornar-se mais duras com o sétimo tema “And Onto PickNickMagick” – uma longa constrição de autocensura, suspensa no êxtase das próprias palavras de redescoberta existencial, como num círculo eterno de conhecimento construído nas vivências que nos marcam e que constituem a nossa razão de ser, mas só à posteriori. Há que unir os pontos e os números para, a uma certa distância, se entender a lógica superior de tudo isto. De qualquer forma, a questão é – seríamos todos nós capazes de o fazer? Basta escutar o arrebatamento e sofrimento de Tibet para nos fazer pensar duas vezes. A esperança será sempre a última a morrer portanto a humanidade terá pouco que se queixar, mas da forma como Tibet apresenta a questão, a dúvida pode sobrepor-se. E de quem é a voz que fecha em tom profético reconciliatório, fazendo a passagem para o tema seguinte? Por momentos parece Bobby Beausoleil, mas isso seria adivinhar muito, talvez demais…
Com “Why Did The Fox Bark?” regressam os momentos de nostalgia suave, o piano de Reinier Van Houdt a levar-nos pelos ares, entre recordações místicas do secreto legado hebraico à grega ortodoxia, que parecem fazer sentido quando justapostas pela mão de Tibet, e depois o aparente tema alegre do álbum, “I Remember The Berlin Boys”, que por momentos poderia ser sobre o passado de Tibet junto dos ex-grupos amigos dos Current 93 (“Lembro-me dos rapazes de Berlim, dos esquadrões esquálidos, com as suas botas negras…”, é um verso demasiado óbvio para se referir apenas às S.A. e S.S. da Berlim pré-Hitleriana…). Mas como pode ele repescar essa memória se nunca ele próprio vestiu a camisola do revisionismo cínico dos negros anarquistas com quem conviveu nos anos 80? Se mesmo em Osaka 89, aquando da cimeira que reuniu em palco Boyd Rice, Douglas P, Tony Wakeford, Rose McDowall e Michael Moynihan, Tibet esteve sempre à parte, tocando em seu nome apenas?
Talvez o seguinte verso possa fazer luz sobre as misteriosas palavras do tema: “à distância, rodando como um remoinho de fumo, ou vapores, e assobiado ao censo da face noturna, melros zumbem no céu, e a mensagem é : eu comandei o Mal”. Mas nesse caso os seguintes – caso queiram confirmar – parecem, repito, parecem refletir a descida ritual de Tibet a práticas de que hoje não se orgulha, embora as abraçasse apaixonadamente, “por aí fora com a rapaziada de Greewood…”. Será mesmo este o grande poder catalisador deste álbum, um auto exorcismo poético, espiritual e místico, condutor da verdade.
“Spring Sands Dreamt Larks” é uma valsa prog de vanguarda, e uma letra que parece perder algum impacto perante o ritmo e piano obsessivos, mas que constitui uma peça fundamental na compreensão de uma das chaves dos motivos que levaram Tibet a escrever o que escreveu em todo este álbum. A pergunta “Quanto custa uma criança no teu coração?” justaposta ao saxofone free de John Zorn, responde.
Nick Cave vai fechar este I Am The Last Of All The Field That Feel num tema em que Tibet não entra – “I Could Not Shift The Shadow”. Interpretação falada sobre o piano repetitivo de Reinier Van Houdt, que repesca parte do mesmo poema anterior e as mesmas perguntas, questões que ficam em aberto, sob um ulular de coros sussurrados e um saxofone de Zorn ecoado e distante, fraseado de sincero sentimento soprado sobre o custo da areia em Anarch… um fim incaracterístico mas eficaz para um disco novo de David Tibet e Current 93.
Pouco interessa se pessoalmente eu possa ou não ter feito as pazes com a música do grupo; pouco interessa se este disco vai ou não mudar alguma coisa na carreira individual do poeta e cantor de “Imperium” e “Soft Black Stars”. O que mais se torna caro neste exercício reflexivo de mais de uma hora é a própria afirmação de esperança da música alternativa face às outras que a rodeiam (da erudita e clássica, ao lixo de luxo vomitado em enxurrada pelos mitos fritos de Londres a Los Angeles), a sobreposição das boas ideias e da grande chama criativa artística, face a todos os esquemas de fácil absorção que, tal como naves negras escurecem o céu da nossa antiga liberdade de pensamento.
Depois de escutar este novo trabalho dos Current 93 poderemos reafirmar alguma esperança de vida, que felizmente contraria parte do título da obra que anuncia o aluimento de terras em parte incerta. Quanto a Tibet, não será decerto o último de todos, mas neste trabalho está, como diria La Palice, em primeiro lugar. Muito bom regresso e com uma fantástica verve poética como não lhe víamos há anos. Quiçá num futuro próximo possamos falar de CURRENT 93 na ótica do pré e pós “I Am The Last Of All The Field That Feel”.     
Texto:JCS; Photos: AF

sábado, 12 de Abril de 2014

Café Europa Radio Show #117, 10-ABR-2014 www.warfareradio.com

01. SPIRITUAL FRONT - "Song For The Old man" (IT) (open wounds - 2013)
02. SPIRITUAL FRONT w/ STEFANO PURI - "I Just Can't Have Nothing" (IT) (black hearts in black suits - 2013)
03. CURRENT 93 - "The Invisible Church" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
04. CURRENT 93 - "Those Flowers Grew" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
05. CURRENT 93 - "Kings And Things" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
06. CURRENT 93 - With The Dromedaries" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
07. CAMERATA MEDIOLANENSE - "Quest' Anima Gentil" (IT) (vertute, honor, bellezza - 2013)
08. ANTONY AND THE JOHNSONS - "Soft Black Stars" (GB) (i fell in love with a dead boy - ep - 2001)
09. CURRENT 93 - "The Heart Full Of Eyes" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
10. CURRENT 93 - "Mourned Winter Then" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
11. CURRENT 93 - "And Outo PickNickMagik" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
12. CURRENT 93 - "Why Did The Fox Bark?" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
13. FIRE AND ICE - "Treasure House" (GB) (fractured man - 2012)
14. DEATH IN JUNE - "The Maverick Chamber" (GB) (peaceful snow - 2010)
15. CURRENT 93 - "I Remember The Berlin Boys" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
16. CURRENT 93 - "Spring Sand Dreamy Larks" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
17. CURRENT 93 - "I Could Not Shift The Shadow" (GB) (i am last of all the field that fell - 2014)
18. MARC ALMOND w/ MICHAEL CASHMORE - "Boy Caesar" (GB) (feasting with panthers - 2011)
19. HORUS CHAMBER - "Omnibus" (PT) (não editado)
David Tibet (Current 93)

quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Café Europa Radio Show #116, 03-ABR-2014 www.warfareradio.com

01. JOY DIVISION - "Warsaw" (GB) (an ideal for living e.p. - 1978)
02. JOY DIVISION - "Leaders Of Men" (GB) (an ideal for living e.p. - 1978)
03. VON THRONSTHAL - "We Walked In Line" (GER) (bellum, sacrum bellum!? - 2003)
04. JOY DIVISION - "Ice Age" (GB) (heart and soul - 1997)
05. GARDEN OF DELIGHT - "Dead Soul" (GER) (heaven and hell - 1996)
06. JOY DIVISION - "New Dawn Fades" (GB) (unknown pleasures - 1979)
07. XIU XIU - "Ceremony" (USA) (chapel of the chimes e.p.- 2002)
08. JOY DIVISION - "Sound Of Music" (GB) (still - 1981)
09. KENDRA SMITH - "Heart And Soul" (USA) (v.a. a means to the end - 1995)
10. MISIA - "Love Will Tear Us Apart" (PT) (ruas - 2009)
11. SIEBEN - "Transmission" (GB) (no less than all - 2011)
12. JOY DIVISION - "Atrocity Exhibition" (GB) (closer - 1980)
13. JOY DIVISION - "Novelty" (GB) (heart and soul - 1997)
14. GALAXIE 500 - "Ceremony" (USA) (on fire - 1989)
15. NAEVUS - "The Only Mistake" (GB) (others - 2013)
16. TORTOISE - "As You Said" (GB) (v.a. a means to the end - 1995)
17. JOY DIVISION - "Komakino" (GB) (heart and soul - 1997)
18. JOY DIVISION - "Twenty Four Hours" (GB) (closer - 1980)
19. CLAN OF XYMOX - "Decades" (NED) (kindred spirits - 2012)
20. KIRLIAN CAMERA - "The Eternal" (IT) (solaris - the last corridor - 1995)
21. JOY DIVISION - "Shadowplay" (GB) (heart and soul - 1997)
22. JOY DIVISION - "Chance (Atmosphere)" (GB) (heart and soul - 1997)
23. HONEYMOON STITCH - "Day Of The Lords" (USA) (v.a. a means to the end - 1995)
24. BLOOD AXIS - "Walked In Line" (USA) (ultimacy - 2011)
25. JOY DIVISION - "Insight" (GB) (heart and soul - 1997)
26. JOY DIVISION - "I Remember Nothing (Live)" (GB) (heart and soul - 1997)
27. SWANS - "Love Will Tear Us Apart (Accoustic)" (USA) (love will tear us apart -  e.p. - 1988)


SIEBEN
 Photos by A.F.
NAEVUS

quinta-feira, 27 de Março de 2014

Café Europa Radio Show #115, 27-MAR-2014

01. CAMERATA MEDIOLANENSE - "Der Tod" (IT) (madrigali - 1999)
02. PROPAGANDA - "Dream Within A Dream" (GER) (a secret wish - 1985)
03. SOPOR AETERNUS - "The Oblong Box" (GER) (poetica - 2013)
04. SOPOR AETERNUS - "Dreamland" (GER) (poetica - 2013)
05. SOPOR AETERNUS - "Eldorado" (GER) (poetica - 2013)
06. GAE BOLG AND THE CHURCH OF FAND - "La Muete” (FR) (la ballade de l'ankou - 2002)
07. SEVEN PINES - "Lvresse Quotidienne" (FR) (nympholept - 2003)
08. SOPOR AETERNUS - "The Sleeper" (GER) (poetica - 2013)
09. SOPOR AETERNUS - "Alone 1" (GER) (poetica - 2013)
10. SOPOR AETERNUS - "The Conqueror Worm" (GER) (poetica - 2013)
11. SOPOR AETERNUS - "Alone 2" (GER) (poetica - 2013)
12. CORDE OBLIQUE -"Heraion" (IT) (per le strade ripetute - 2013)
13. CORDE OBLIQUE - "Averno" (IT) (per le strade ripetute - 2013)
14. SOPOR AETERNUS - "The City In The Sea" (GER) (poetica - 2013)
15. SOPOR AETERNUS - "The Oblong Box 2" (GER) (poetica - 2013)
16. SOPOR AETERNUS - "The Haunted Palace" (GER) (poetica - 2013)
17. BARBAROSSA UMTRUNKT - "Walvater" (FR) (der talisman des rosenkreuzers - 2012)
18. BARBAROSSA UMTRUNKT - "L'Empire Du Milieu" (FR) (la fraternité polaire - 2013)
19. SOPOR AETERNUS - "A Dream Within A Dream" (GER) (poetica - 2013)

Cafe Europa apresenta: Sopor Aeternus & The Ensemble Of Shadows ‎– "Poetica", Apocalyptic Vision, 2013

O colectivo gótico alemão SOPOR AETERNUS AND THE ENSEMBLE OF SHADOWS lançou no outono passado mais um disco de originais, o décimo primeiro para ser mais exacto, “Poetica”, todo ele dedicado à poesia de Edgar Allan Poe, e mais concretamente, à colectânea “The Raven and Other Poems”, ousadia já várias vezes arriscada por gente tão díspar como Alan Parsons, os Propaganda, os Manilla Road e Lou Reed, entre muitos outros. O grande vulto da literatura norte-americana não é propriamente novidade na discografia do grupo de Anna Varney Cantodea – antes já tinha sido abordada a sua poesia em discos como “Todeswunsch” e “Dead Lovers Sarabande”, mas apenas em temas soltos. Neste “Poetica” encontramos toda uma recolha que se encaixa na perfeição na estética desta estranha agremiação germânica que há pelo menos um quarto de século se inscreveu na órbita saturnina da música moderna de intensos (e óbvios) traços góticos.
Embora as edições dos SOPOR AETERNUS se tornem cada vez mais alvo da atenção dos grandes colecionadores pela exuberância do seu acabamento formal, também é certo que os lançamentos se tornaram ultimamente mais esparsos. Se lembrarmos discos essenciais que constituem memória recente no acervo criativo dos SOPOR AETERNUS, tais como “La Chambre D’Écho” ou “Les Fleurs du Mal”, apercebemo-nos de que muita coisa se passou entretanto e de que estes trabalhos fulcrais no panorama europeu estão já a alguns anos de distância, embora a sua pertinência se mantenha inalterável.
A riqueza musical dos SOPOR AETERNUS pode traduzir-se em duas palavras – morbidez e sensualidade. Conquanto que esta associação possa soar perigosa ou passível de grosseiros mal-entendidos, terá sido esta a constante ao longo destes anos todos. Anna Varney é mestre em compor narrativas mediúnicas, como se tudo o que envolve as suas criações se passasse sempre entre o sofrimento do presente obscuro e uma inquietude na eternidade do além-túmulo que remete de imediato para a ideia de um constante e avassalador estado de suspensão de alma, de punição e de limbo. No entanto, e apesar da, por vezes, sufocante atmosfera desenvolvida, parece sempre existir, digamos, não uma esperança, mas um consolo masoquista no eterno sofrimento dos danados. A alma humana tem essa prodigiosa elasticidade de se habituar ao padecimento de uma vida e para além dela, e nesse campo elísio Anna Varney está entre os seus melhores intérpretes.
Ao escolher a referência por excelência da poesia feita elegia como Edgar Alan Poe, basicamente a entidade geradora da noção do conto e do poema góticos, os SOPOR AETERNUS não podiam estar mais a jogar “em casa” – e assim os temas fluem naturais, quase imediatos, na associação música-letra. Com efeito, e após o intro de pouco mais de um minuto, com a primeira parte de “Oblong Box”, tema recorrente neste álbum mas sem palavras, até porque não era originalmente um poema mas um conto de Poe, surge a adaptação de “Dreamland”.
Assim que soam as primeiras notas e num andamento lento, somos imediatamente confrontados com a ambiência clássica de uma ghoststory.Há madeiras a ranger, há ventos a uivar, enquanto os teclados lúgubres acompanham o incauto e mesmerizado visitante do poema incluso em “The Raven and Other Poems” por essas paisagens plenas de contrastes que arrastam a alma para um deslumbramento mórbido.
São quase quinze minutos que podem ser escutados em loop, tal a envolvente conseguida, rara proeza de vates e bardos – tornar o tempo de uma longa peça quase impercetível para o ouvido mundano, habituado a navegar em vetustas jangadas da imediatez. Sendo apenas o segundo tema do alinhamento, e tendo em conta que os quase 80 minutos aproveitáveis do formato cd foram inteiramente preenchidos com os onze temas, constatamos facilmente que outras extensas peças nos cruzarão o caminho nesta descida aos mais deslumbrantes abismos da imaginação poética. Tal como no título…
A versão seguinte é a do fantástico “ElDorado”, a história do cavaleiro que envelhece na senda do mítico lugar até que, calvo e quase esgotado, encontra outro cavaleiro sombrio a quem indaga sobre o Eldorado, obtendo apenas a resposta de que ainda fica para lá das Montanhas da Lua, e depois descendo o Vale das Sombras… não há muito a dizer para além do que a composição nos pode impressionar – talvez uma fugaz manifestação da incrível versatilidade dos SOPOR AETERNUS AND THE ENSEMBLE OF SHADOWS, um tema que parece encavalitar ritmicamente sobre penedos e florestas agrestes e que se perde no horizonte por entre laivos momentâneos de musicalidade hispânica.
Um exemplo do valor da arte maior do grupo de Anna Varney, e que espevita o interesse desta abordagem, adensando o clima de mistério que logo segue em frente com “The Sleeper”, de resto um dos melhores escritos de Poe incluído na referida coletânea de poemas lançada em 1845. O lamento do sujeito poético na cripta onde jaz a beleza da amada, eternamente em descanso velado por anjos, parece ser premonitório do que aconteceria ao próprio Poe quando a sua primeira esposa Virginia Clemm, catorze anos mais nova, morre na flor da idade.
À parte alguma previsibilidade que pode decorrer da temática quase ultra-romântica antes do tempo, dado que Poe é contemporâneo da primeira vaga do Romantismo de sabor gótico, além do mais, no Novo Mundo, a adaptação do tema pelo coletivo alemão é de tal forma sugestiva e quase cinematográfica, que dificilmente vislumbramos outro modo de o musicar – uma espécie de desfile fúnebre, ocasionalmente pontilhado por motivos patéticos que traduzem o estado próximo da loucura do que se prostra junto da pira tumular e encomenda extático a beleza imóvel no sono perpétuo à proteção divina, prece tão bem traduzida pelas frases melódicas do sintetizador que parece refletir o som da eternidade. E mais uma vez, assim passámos onze minutos…
O tema seguinte é o fabuloso “Alone”, que terá mais à frente um contraponto instrumental de mais de sete minutos, aspecto que, apesar de irrepreensivelmente executado, poderá ser um ponto fraco no alinhamento do álbum, visto mesmo como “filler”, já que esta primeira parte é praticamente perfeita – o poema que fechava o alinhamento de “The Raven” e no qual o poeta adivinha finalmente na sua originalidade, na sua unicidade e obstinada individualidade, uma maldição que o atormenta desde a infância, como uma nuvem negra tornada demónio sempre presente na sua visão. Nunca será demais sublinhar a particular força interpretativa a qual Anna Varney se entrega totalmente nesta adaptação de “Alone”.
Entretanto, entrámos já na macabra “The Conqueror Worm” – animada pelo contraste de uma toada mais gothic-pop, Varney reinterpreta a saga do pobre corpo humano que sem vida se rende ao verme conquistador. Neste tema de porte médio, comparativamente às peças de resistência incluídas em “Poetica”, tem-se igualmente a visão de conjunto da herança gótica que os SOPOR AETERNUS carregam, e que tanto pode fazer referência aos CHRISTIAN DEATH da fase intermédia ainda com Rozz Williams, como pode mesmo recuar mais no tempo e citar KLAUS NOMI, obviamente menos o esplendor histriónico operático, mas com a mesma carga de ironia sobre a condição humana, simultaneamente sarcásticos e apaixonados pela forma e conteúdo da criatura mais complexa do planeta.
Tudo passa e assim passa a versão instrumental de “Alone”, na sua beleza estrutural e no seu acervo técnico, música para tertúlias solitárias à lareira, no silêncioda noite invernal – não seria estritamente fundamental, mas como acontece sempre com os SOPOR AETERNUS, tem aquele ingrediente quase hipnótico e macabro que não nos deixa afastar nem olhos nem ouvidos…
O alinhamento do álbum desenvolve para o seu terço final e a atmosfera inicial opressora de “The City In The Sea” deixa adivinhar mais um pedaço de pesadelo nos seus mais de dez minutos. Sem dúvida um dos mais perturbantes poemas de Poe e um dos melhores neste alinhamento de tributo que Anna Varney e restantes companheiros conseguem repor, com inegável mestria, recontando a cidade que a Morte moldou em recônditas paragens marítimas, onde nenhuma luz divina rebrilha, descrição fantástica do imaginário reino dos mortos, que por fim o Inferno, emergente de mil tronos, vem reclamar numa onda gigante de vermelho sangue. A interpretação de Anna será aqui de longe a melhor, num estado de transe em que a cegueira do pavor vê mais fundo que a frieza racional do literato, tornando este momento de “Poetica” verdadeiramente inspirador e revelador da cíclica grandeza dos escritos de Edgar Alan Poe, que só pode ser considerado mesmo um emissário tradutor de uma potestade de dimensão universal.
Depois da segunda parte do curto instrumental “The Oblong Box”, surge a adaptação de “The Haunted Palace”. Outra longa peça de dez minutos e uma superior reposição do poema fortemente cinematográfico (50 anos antes do cinema!), onde Poe fala sobre um maravilhoso palácio e dum monarca em tempos bem-aventurado, cujos domínios, contaminados por “vestes de sofrimento” e ignomínia, se tornaram com o tempo num lúgubre lugar de maldição.
Aqui, mais uma vez, o ensemble de músicos de escol, à volta de Varney, assoberbam-se com justeza para construir uma narrativa sublime que sustem de modo incomparável a imaginação do ouvinte, nos últimos minutos deste excelente disco do ano passado que vai fechar com “Dream Within A Dream”, que os compatriotas alemães PROPAGANDA já tão bem tinham repegado há praticamente 30 anos, e, embora não seja de longe a melhor faixa de “Poetica”, Anna Varney e os SOPOR AETERNUS conseguem mais uma vez encontrar o portal de passagem para o mundo espectral de Poe.
Digamos de passagem que a versão dos PROPAGANDA continua por assim dizer imbatível, mas atendendo ao que o grupo de Varney alcançou nas interpretações que ficam atrás, justiça lhes seja feita que merecem a distinção e o nosso voto de confiança.
Sobre Edgar Alan Poe, já foi tudo dito e feito, mas contudo haverá sempre essa urgência de lhe agradecer os ensinamentos de, através da poesia e narrativa fantásticas, termos a obrigação de entender que a vida e a morte estarão sempre de mãos dadas na dimensão da criação literária, e que por esta poderemos esculpir da maneira que melhor nos agradar, o horror ou a felicidade de conhecermos a ambas de forma intensa e vivida.
Quanto aos alemães SOPOR AETERNUS, e ao cabo de 25 anos em que Anna Varney nos ensinou que o pranto também pode ser uma forma de cantar sublime, só nos resta reconhecer a sua importância da música moderna europeia, vulto negro admirável que como uma velha árvore quase moribunda, se impõe majestosamente no centro geográfico de uma longa tradição de histórias de horror, mistério e, acima de tudo, Imaginação.