quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CAFÉ EUROPA apresenta: OF THE WAND & THE MOON “The Lone Descent”, Heim010, 2011

Apanágio da mudança constante, também entre os círculos musicais que todos julgavam imutáveis, os últimos dois anos têm sido pródigos em lançamentos que atestam o que muitos pretendem adiar – o desaparecimento gradual daquilo a que se chamou desde há mais de 20 anos de dark folk, folk noir, ou folk apocalíptico, e que caracterizou parte da música popular moderna ocidental desde os finais da década de 80.
Quer isto dizer que a folk music, tal qual a conhecemos, acabou?
É claro que não, uma vez que faz parte da intemporal memória colectiva ancestral dos povos.
Mas aquela franja de criadores de pouca técnica mas grandes ideias, depois de ampliada na imitação até quase à exaustão, libertou-se da sua pele, arranjou uma segunda, bem mais vistosa, mais resistente e decididamente mais transversal – ou a caminho de o ser.
Se pensarmos por um minuto nos muitos discos recentes em que Tony Wakeford, dos Sol Invictus, esteve envolvido, nos últimos 4 álbuns de originais de David Tibet com os renovados Current 93, na radical mudança que Douglas Pearce operou nos dois últimos Death in June, enfim, operações que se estenderam a outros nomes importantes da cena folk de costela industrial, como Blood Axis, Der Blutharsch, Allerseelen, quase todos eles se conseguiram libertar do estigma confrangedor dos dois acordes abertos!!!
O dinamarquês Kim Larsen e o seu projecto pessoal OF THE WAND AND THE MOON (OTWATM) está seguramente entre eles, aliás, se calhar já um pouco acima.
Larsen levou 6 anos a lançar o sucessor de “Sonnenheim”, um duplo álbum na sua edição de vinil, um disco que coroava outra meia dúzia de anos em que produzira 3 interessantes álbuns, mas que seriam presa fácil da acusação de minimalismo folk.
O disco terá de resto causado tal impacto junto das primeiras fileiras dos defensores do género, que relançou no ar a marca OTWATM como um dos bastiões irredutíveis do folk noir tradicionalista, mesmo vindo da Dinamarca.
Com a passagem dos anos, Larsen expressou-se também através do sidekick Solanaceae, por vezes como se quisesse recuperar os ambientes folk ancestrais mais fiéis a “Nighttime Nightrhymes”, seu 1º disco que já datava de 1999!
Este desdobramento acabou por trazer, não uma fragmentação ou dispersão da sua criação, mas antes um inquestionável reforço.
Em 2011, “The Lone Descent”, de novo em nome de OTWATM, afirma claramente as tendências que referíamos atrás, a da suave mudança associada a um franco crescimento, enquanto compositor de canções maiores; não significa isto, um alinhamento tardio com ditames pop, porque decerto OTWATM nunca fará parte de playlists da rádio mainstream – e tê-los por cá é só mais exemplo do esforço recompensado da crença nas ideias, muito para lá das aparências!
The Lone Descent” está impregnado da grandiosidade de arranjos que em tempos caracterizou a escrita de velhos monstros sagrados como Van Dyke Parks, Brian Wilson e, numa vertente mais visceral, Lee Hazlewood e Serge Gainsbourg, daí a saudável e bem-humorada confusão, atraída pelo leitmotiv que promovia no Outono o álbum de Kim Larsen e companhia, como se fosse possível descaracterizar em 3 tempos uma já longa carreira de 15 anos.
Percebe-se a referência, mas contorna-se a desnecessária analogia directa – Kim Larsen permanece um songwriter dos espaços de recolhimento, arauto de verdades que não se deixam incendiar pelo fogo que maneja com distância e mestria.
Se tivéssemos que destacar um só tema que fosse, estaríamos em maus lençóis – e não será esta uma risível desculpa de mau ouvinte.
As canções folk de luxo sucedem-se umas atrás das outras, envoltas em roupagem de estúdio talhada à medida, com uma sábia utilização de teclados e guitarras que, só por momentos, podem trazer à memória os trabalhos mais acetinados da década de 90 dos Death in June (But what ends… e Rose Clouds), mas isso não será argumento suficiente para o acusar de seguidismo!
E quando tudo já parece conquistado com os seis temas dos lados 1 e 2, assim que os primeiros 25 segundos do lado 3 nos fazem levantar e verificar as rotações do prato, somos detidos pela obscura dinâmica majestática de “A Tomb Of Seasoned Dye”, avalanche emotiva onde se reaprende a ouvir canções com ganchos em nome do amor à música e à canção popular.   
Não é fácil ponderar um entusiasmo derivado do prazer auditivo de alinhar antes temas como “Sunspot”, “A Pyre Of Blacksunflowers” ou “Tear It Apart”, mas o segundo disco de “The Lone Descent” carrega ainda mais impiedosamente sobre a sensibilidade do ouvinte, e na sequência do quase ritualismo sinfónico de “Is It Out Of Our Hands”, Larsen surpreende tudo e todos com um tema que poderia voar sobre a skyline de Nashville, exactamente “Watch The Skyline Catchfire” , “… a distant memory before I go to sleep”.
Em quase todas as canções de “The Lone Descent”, a marca da experiência e do enriquecimento artístico, talvez um dos exemplos que comprovam a nossa premissa, com que abrimos esta reflexão sobre o novo OTWATM – não sabemos que novo rei-sol nasceu na música moderna, popular ou não, não nos interessam já os rótulos e não nos ficamos por aparencias, por muito sugestivas de autenticidade que possam parecer.
Mas, “The Lone Descent” é uma obra rica, una e indivisível no panorama actual que procuramos – quis a ironia do destino que fosse assinado, como diria Sophia, pelo Cavaleiro da Dinamarca… um músico com quem em tempos tivemos o gosto de dialogar, sempre cauteloso com as palavras mas certeiro na sua intenção. “The Lone Descent”, como decerto já perceberam, é o seu melhor trabalho até ao presente.
(Texto de João Carlos Silva)

Tracks
1 : Sunspot
2 : Absence
3 : A Pyre Of Black Sunflowers
4 : Tear It Apart
5 : We Are Dust
6 : A Tomb Of Seasoned Dye
7 : Is It Out Of Our Hands?
8 : Watch The Skyline Catch Fire
9 : The Lone Descent
10 : Immer Vorwärts
11 : A Song For Deaf Ears In Empty Cathedrals

Produced, written and performed by Kim Larsen
At Soundscape Studios, Copenhagen
Engineered by Louise Nipper
Mastered by Flemming Hansson Jr at Sweep Mastering
Booklet artwork front, back and middle pages by
Alex Rose
Add. Musicians :
John Murphy : Add. Drums (1, 6, 9)
Soma Allpass : Cello (3, 6, 7, 8, 9, 11)
Anne Eltard : Violin (3, 6, 11)
Louise Nipper : vocals (1, 5, 6, 9)
Lorenzo Woodrose : vocals (3, 5)
Aron : vocals (5)
Louise Wilk-Zerahn : vocals (11)
Simon roland pedersen : vocals (11)
Esben Tind : cello (8)
Bo Rande : trumpet (2, 3) Omnichord (2)
John van der Lieth : whisper (3)
Irma Balciunaite : whisper (11)
Niels Rønne : Piano outro (11)

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